“Síndrome do imperador” atrapalha a educação dos filhos

26/11/2018 09h04

Seja qual for a modalidade de família que o filho esteja inserido, os pais devem estar sempre atentos para que a função educativa não fique comprometida. Existem muitos motivos que dificultam a presença física junto aos filhos e então, para compensar a ausência, muitos pais procuram satisfazer dando presentes. É comum presenciar filhos com pouca idade atuando como verdadeiros imperadores dentro do lar e os pais como verdadeiros súditos.

O psicanalista Marco Leite, responsável pela área da família da Federação Espírita Brasileira (FEB) esclarece que o mundo está passando por mudanças e a família também. Ele pontua a necessidade dos pais assumirem a função de educadores para que os filhos atinjam a maturidade necessária para o mundo em que irão viver.

"A família tradicional era a que imperava e praticamente não existiam outras modalidades ou formações de lares. Hoje encontramos avós criando os netos, pais separados criando os filhos sem a presença do outro. Também tem a família homoafetiva, em que o filho tem dois pais ou duas mães. Independentemente da realidade existente, essa família tem um papel muito claro que é trazer essas crianças a um padrão de realidade onde elas vão estar, em outro momento da vida, se colocando para o mundo. E é aí que são geradas situações em que a gente pode observar desequilíbrios sociais", diz Marco.

Marco leite cita um exemplo do que pode levar o desequilíbrio para o lar. Segundo ele, isso ocorre quando as crianças exigem dos pais o que querem fazer, de forma arbitrária. " Dentro da própria casa vemos casos em que são as crianças que estão imperando ao invés dos pais, ou seja, são elas que estão determinando ou definindo o que é o certo e o errado. Esse comportamento é apontado por muitos psicólogos como a Síndrome do Imperador, em que aquelas crianças, às vezes com quatro, cinco ou seis anos determinam os seus desejos, pervertendo o processo de educação".

Ainda segundo o psicanalista, vivenciar a infância é muito importante na formação do indivíduo, "pois é nesse instante da vida que essa criança tem que estar sendo firmado com os valores que devem estar estruturando o seu caráter a partir de então. É gerar o ser do amanhã. Então, quando esses pais, terminam deixando que as crianças estabeleçam o que é o certo e o errado, nós vemos aí, uma inversão de valores. E os pais terminam aceitando com tranquilidade", destaca Marco Leite.

A relativa ausência na vida dos filhos é um dos motivos que poderá determinar essa inversão de valores na família. " Nós vamos ter alguns pais que não estão tão presentes na vida dos filhos. E o que eles fazem? Para compensarem a ausência, eles dão presentes em vez de dar presença. O que importa para a criança nessa fase é a presença e não o presente. E esse presente termina gerando uma inversão nessa formação que é mais importante "Ter" do que "Ser".

"A postura dos pais precisa ser repensada sobre como estão formando as crianças. É o que elas estão querendo ou o que a gente está estabelecendo como parâmetro, isto é, estamos, mesmo sem querer fazendo com que elas associem o fato de que quando algo der errado, ganharão um presente? Isso faz com que a criança esteja sempre desejando o "Ter". E é natural para esses pais que, como estão ausentes, terminem facilitando seus relacionamentos com o filho dessa maneira", retrata Marco Leite.

E as consequências para os pais e para os filhos com esse tipo de relacionamento? " Nós vamos ver lá na frente os desajustes que serão gerados nessa criança, que vai se tornar jovem, e que depois vai para a vida adulta. E vai ser um adulto que terá desencontros com a situação da sociedade. A sociedade e o mundo não vão dar o que ele está querendo. E como ele não sofreu o processo de frustração dentro de casa, não vai aceitar as dificuldades. Os pais devem aprender a causar frustração nos filhos. Por quê? Porque as crianças, no primeiro momento da vida, são egocêntricas. E, na hora em que dizemos não para elas, estamos estabelecendo alguns limites e frustrando os seus desejos. O não é o limite. E o sim, também. Estamos presenciando no mundo atual as crianças sendo criadas sem limites.

"Portanto, vou usar uma frase de Jesus que serve para ilustrar: Seja o seu sim, sim e o seu não, não". Ou seja: não é não! Se é sim, tudo bem!", concluiu o psicanalista que esteve em Dourados palestrando na 1ª Confraternização da Família Espírita.

Mais sobre a questão na próxima reportagem.

Fotos: Aparecido Frota