Portal da Luz e Grupo de Estudo Psicanalítico debatem homossexualidade e suicídio

10/10/2017 07h17

O mês de setembro é lembrado pelas campanhas de prevenção ao suicídio. É chamado Setembro Amarelo, unindo diversas instituições, que se manifestam das mais variadas formas em favor da vida (oportunidade de progresso que muitas vezes se esvai prematuramente). Como parte dessa mobilização, o Centro Espírita Portal da Luz abriu as portas ao Grupo de Estudo Psicanalítico de Dourados – coordenado por Leile Fernandes – para abordar o assunto por meio da sessão do cineclube Cine Luz. O evento aconteceu no dia 05 de outubro (quinta-feira) apresentando o filme Orações para Bobby (2009), dirigido por Russell Mulcahy.

Após a exibição do filme, o grupo composto por Ana Paula Zanatta, Lillian Spessato, Nágela Petelin e Osvaldo Andrade mediou o debate sobre homossexualidade e suicídio. Neste momento, após uma breve introdução do grupo, foi aberto à perguntas e discussões. Os principais temas abordados foram: a culpa, preconceito no meio familiar, padrões de criação das famílias e hipóteses do que pode levar ao suicídio. E, ainda, alguns caminhos para preservar a vida e evitar a homofobia foram apontados, com destaque para o diálogo e a busca do conhecimento.

SOBRE O FILME

O filme é uma adaptação do livro "Prayers for Bobby: A mother ´s coming to terms with the suicide of her gay son", de Leroy Aarons. Bobby era um jovem de 20 anos, em uma família tradicional presbiteriana e matriarcal. Nela permeava o discurso de ódio aos gays e a tudo que para eles fosse condenável de acordo com a Bíblia. Bobby se assume gay para o irmão, que na tentativa de ajudar conta para a mãe. A partir daí começa uma luta da família, para Deus curá-lo e ele conseguir resistir à tentação, única forma de todos ficarem unidos no céu. Bobby então é submetido a tratamento psiquiátrico, oprimido por encontros arranjados (ele precisava conhecer mais meninas para se encantar por alguma) e grupos de igreja. Em casa as energias são todas voltadas a tornar o rapaz heterossexual. Ele encontra, por fim, apoio na prima que veio visitar a família. Ela torna-se, assim, o escape da realidade, sendo que Bobby chega a morar em Portland, com ela algum tempo, onde arruma um emprego, encontra um namorado e aos olhos dos outros está mais estável. Entretanto, a mãe continua na luta de colocar o filho no caminho de Deus, e manda de aniversário, além de um suéter, uma cartilha falando da AIDS, "a doença homossexual". Em todo esse tempo Bobby escrevia um diário que deixou claro o quanto demonizava a si, e as dificuldades com a família. Até o ponto em que todas aquelas angústias se afloraram após ter sido traído pelo namorado, e ele pula de um viaduto, morto imediatamente por um caminhão que trafegava. A segunda parte do filme foca na confusão da mãe diante da situação, ela começa a procurar respostas e querer saber se seu filho está no inferno. Dessa forma, conhece uma nova visão da bíblia, um grupo de apoio aos familiares de gays, e procura entender se o certo é o pregado por ela ao filho ou se podem ter outras verdades. Mary Griffith torna-se, então, uma das maiores ativistas da liberdade gay nos EUA.

DEBATE

O primeiro ponto abordado foi a culpa da mãe, tanto a sentida por ela, que a levou a buscar conhecimento, quanto o julgamento de quem olhando observando a situação de fora.

O público discutiu se a culpa era realmente da mãe, pois ela quem oprimiu a sexualidade do filho e tomava os posicionamentos em casa em nome de todos. Entretanto, perceberam que a criação dela ajudou-a a ter princípios endurecidos que dificultavam a ela enxergar o filho e realmente escutá-lo. E há, também, a dor disfarçada na dureza e na "masculinidade" explícita no filme, quando diz, por exemplo, que não teria um filho gay e chora após estar sozinha. Foi apontada, ainda, a omissão do pai diante da mulher, representante de um papel mais amoroso, no entanto, inexpressivo. Nesse ponto a platéia discutiu que não bastava não fazer o mal era preciso fazer o bem (tema de O livro dos Espíritos, Capítulo 1 - terceira parte). Todavia lembraram-se da diferença na constituição familiar da década de 80 e na facilidade que estavam tendo de julgar. A culpa caiu, então, em cima da sociedade, já que ela é todos os valores e todas as pessoas, incluindo Bobby e sua família.

A família de Bobby não era a única com preconceitos. Ele não conseguia se aceitar e entender sua condição como natural, um sentimento de perseguição o desequilibrava, era crente do ódio que tinham dele, considerando que odiavam gays. Foi construindo microtraumas, segundo o grupo GEPD, e acabava por projetar no outro a angústia sentida por não aceitar aspectos de si mesmo. Ademais, um dos contribuintes afirmou que "quando chega ao suicídio o ser já não habita o corpo faz tempo", pode-se dizer que ele sobrevive, mas não vive mais.

A situação pela qual Bobby passou é a mesma de milhares de jovens ainda hoje, o desejo de fugir da vida e dormir para sempre. E apenas em 1990 o Conselho Federal de Psicologia proibiu considerar a homossexualidade como um transtorno, conquista muito recente. Tal preconceito continua, muitas vezes, a ser pregado.

Embora a homofobia seja a causa de diversos suicídios, não é a única. O egoísmo, um dos males da humanidade, foi apontado pelo público como uma das causas. Estão todos ocupados de si mesmos e esquecem o outro. Em contrapartida, o padrão de perfeição leva a diversas frustrações, no caso de Bobby, ele era o filho preferido e fazia tudo com perfeição. Apenas a ideia de ser algo pecaminoso para a mãe o atordoou antes do conhecimento da família.

Além disso, os presentes discutiram a causa da homofobia, e foi lembrada com fervor a falta de informação. Após a morte de Bobby, estudando a mãe quebrou preconceitos antes cristalizados nela. Durante todo o debate, alternativas para preservar a vida foram propostas, e a principal foi o diálogo. As campanhas de prevenção ao suicídio chamariam a atenção para o tema só que não fariam diferença direta na vida de quem pretende extinguir a vida. As pessoas precisariam então serem ouvidas e tratadas na sua complexidade. Nenhum problema é pequeno demais ou assunto irrelevante. O filme exemplifica essa falta de diálogo, Bobby apenas ouvia e não era ouvido. Outra proposta foi a de ser maleável. Não se deveria pregar a perfeição se ninguém é perfeito. Cristo disse que atire a primeira pedra quem não é pecador, e em um mundo de provas e expiações ninguém atira.

A plateia percebeu, no entanto, que levar a lição do filme para a vivência é complicado. O primeiro passo seria começar a perceber as pessoas ao redor, abrir o diálogo, conversar sobre tudo, esquecendo tabus sociais como homossexualidade e suicídio. O filme é brindado com um discurso de Mary Griffith. Em um dos trechos ela afirma: "Não era desejo de Deus que o Bobby debruçasse sobre o corrimão de um viaduto e pulasse diretamente no caminho de um caminhão de dezoito rodas que o matou instantaneamente. A morte de Bobby foi resultado direto da ignorância e do medo de seus pais quanto a palavra ‘gay’ ".

Mary transformou uma tragédia em luta e passou a levantar a bandeira social para que não acontecesse com outras pessoas o que ocorreu com seu filho. Do filme e do debate ficou para o público que Setembro Amarelo não é para quem pensa em suicídio, mas para alertar aqueles em volta e, assim, perceberem o outro, não só em determinado mês, mas todos os dias.

Texto: Luana Moreno