Oportunidade adiada

26/10/2018 09h58

Boa noite meus companheiros nessa jornada tão dura rumo ao que é novo. Rumo ao que é maior. Acredito que minhas palavras que narram minha triste trajetória terrena possam servir de conforto ou alerta para alguns ou para muitos de vocês. Talvez seja útil para algum conhecido, ou algum conhecido de algum amigo ou familiar.

Tudo começa com meu nascimento em um bairro militar numa cidade do interior de Minas Gerais. Meu pai, militar de carreira exemplar, cresceu em sua profissão devido a seu empenho e disciplina. Machista e chefe da família, mantinha a ordem com punho de ferro. Sei que em seu coração nunca faltou amor, ele simplesmente agia de acordo com o que acreditava ser certo.

Quando me tornei adolescente fui percebendo que tinha algo diferente dos meus amigos da escola militar. Eles sempre muito grosseiros e durões gostavam de contar vantagens e exibir seus dotes com as garotas. Eu ouvia tudo e fingia concordar, mas, no fundo, eu não me interessava por essas histórias e muito menos pelas meninas.

A cada dia sentia-me mais atraído pelos meninos, um em especial. Mas como cresci ouvindo as mais terríveis historias envolvendo garotos como eu , não me sentia com coragem o suficiente para revelar-me. Meu pai começou a me achar "estranho" e para que não criasse um "maricas", me levava com frequência em casas de mulheres que vendiam seus corpos por alguns trocados. Que sensação ruim! Que humilhação... mas ele me obrigava e eu não tinha coragem de me assumir.

Acabei me adequando aos moldes preconizados por meu pai. Sentia-me preso dentro de mim mesmo. Como se eu tivesse que escolher entre ser feliz ou fazer papai feliz. Com os outros eu não me preocupava. Mas meu pai exercia sobre mim um poder sobre humano. Seu olhar me congelava. Sempre que ele percebia algo de feminino em mim sobrava para mamãe. E ela resignava-se e me olhava com a alma como quem diz: "meu filho, nos poupe dessa vergonha".

Quando fiz 20 anos minha mãe desencarnou e eu ganhei a liberdade. Abandonei a casa do meu pai e mudei-me para um lugar longe onde pude ser quem eu sempre fui e livre do olhar de desaprovação do meu pai. Fiquei sabendo de sua morte pelo jornal que relatava , vez ou outra, notas sobre os militares de carreira importante. Não me importei tanto, afinal já me sentia órfão.

Ao desencarnar, vitima de uma doença nova e sem cura, após muitos desencontros deparei-me com tantas verdades sobre a minha história. Vim ao mundo para ajudar com o progresso de papai. Como ele sempre me amara muito acabaria por exercer sua tolerância e lutaria para defender outros filhos que sofriam como eu.

Eu, por minha vez, após várias encarnações em corpos femininos e sentindo-me superior aos irmãos que não se enquadravam nos padrões sociais, teria certamente valiosos aprendizados. Mamãe, após muito sofrer, teria seus dias mais felizes com a sensação da união família e a depressão não a levaria tão cedo. Esse era o nosso plano reencarnatório.

O que pretendo deixar é o seguinte recado para quem vive história semelhante à minha: Enfrentem! Enfrentem sempre! Se Deus nos impõe tal prova é porque o aprendizado é necessário e o resultado final certamente trará consequências importantes para o nosso progresso.

Não nos esqueçamos, é claro, que as atitudes no bem serão nossa carta de recomendação por onde andarmos. Amem-se meus irmãos. Respeitem-se, assim como também devem respeitar aqueles que não vibram na mesma sintonia que vocês.

Nada pode dar errado quando o que nos move é a amor. Eu perdi oportunidades valiosas em meu aperfeiçoamento e a minha covardia atrasou também o progresso de meus pais que eu tanto queria proteger.

Nunca deixem de praticar a tolerância, a empatia e a ternura. E isso vale para os iguais a vocês. Mas, vale mais ainda para quem é diferente. Fiquem na paz.

Marco Antônio Bernardes

Psicografia no dia 17/10/2018 na União Espírita Allan Kardec – Dourados - MS