Escravidão do espírito

24/06/2018 10h10

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Boa noite a todos aqui presentes nessa linda noite! Peço licença para incomodá-los com minha triste historia. Nasci em uma família tradicional e de importantes e influentes personalidades. Meus antepassados construíram nossa história e nossa fortuna sobre muito sangue e suor.

Sangue e suor que emanavam de corpos fortes, viris e... negros. Quantos e quantos escravos padeceram em terras de meus ancestrais! Quanta violência, quanto desrespeito e quanto abuso... Quanta dor, quantas marcas e manchas de sangue já escorreram por aqueles campos.

Gerações e gerações foram encarnações afora levando consigo essa história de ganância e escravidão. Apegada à matéria e a trivialidade da beleza padronizada, cresci acreditando ser superior. Nunca consegui olhar para um negro e não sentir repulsa, não sentir uma necessidade cruel de ser percebida como alguém que a raça negra jamais deveria se equiparar.

Nas minhas terras, já estando a sociedade livre da escravidão, os trabalhadores mais escuros eram sempre destinados aos trabalhos mais degradantes. Nunca cresceram na profissão, sempre fiz questão de tratá-los como servos. E dentro da lei humana estive sempre correta, porém perante a Lei Divina cometi o pior dos crimes: o preconceito... o desamor.

Não bati, não prendi, não matei e nem vendi. Mas até os animais de minha propriedade dispunham de melhor tratamento. Católica e contribuinte paroquial, envelheci iludida com minha condição. Ao desencarnar estava serena, esperando meu lugar no paraíso, onde gozaria de mais regalias do que desfrutava em vida. Que engano meus irmãos! Vocês, mais do que muitos, podem pensar sem medo de errar: pobre alma!!

Ao despertar no plano espiritual vi-me em um lugar escuro e frio. Sujo, deprimente, horrendo e sem amor. Quantos anos passei lá, não sei precisar. Mas sei que foi tempo suficiente para perder o orgulho. Vi-me em situação muito pior as que eram submetidos nossos escravos. Minha prisão e meu abismo estavam dentro de mim, estavam em minha consciência. E me arrependi... como me arrependi! Passei a achar que aquele era o lugar que eu merecia. Meu inferno eterno.

Mas não, a misericórdia Divina deu-me mais uma vez a chance de ser melhor. A chance de recomeçar. Fui acolhida em uma colônia espiritual onde a "diferente" era eu. Eu era a única branca no meio de uma imensa colônia de negros e descendentes de escravos.

Esses irmãos me acolheram, me limparam as feridas, me vestiram e me alimentaram. Me serviram com o que tinham de melhor. Nunca me julgaram ou me humilharam. E como foi bom aprender com o amor... Ah! Se eu pudesse ter olhado com os olhos da alma teria sempre visto o que vejo aqui... seres humanos maravilhosos, brilhantes, amorosos e muito, infinitamente muito melhores que eu.

Espero um dia poder retribuir todo o amor que recebi aqui. Seja com os negros ou com qualquer outra população vítima de preconceito. Hoje vejo que as amarras terrenas são deixadas na Terra, desatados os nós a alma fica livre, linda e plena.

O que me prendeu foram os nós dos vícios e os pecados morais: o orgulho, a ganância, a vaidade e a soberba. Essa é a escravidão do espírito. Esses são os verdadeiros grilhões que devemos destruir.

Com amor

MENSAGEM PSICOGRAFADA EM U. E. ALLAN KARDEC EM 20/06/2018