ENTREVISTA: Arte Boa Nova conta as particularidades do teatro com a temática espírita

26/08/2017 11h06

Diretor Nelson Peixoto Diretor Nelson Peixoto

A Companhia Arte Boa Nova apresentou a peça Cela 478, em 19 de agosto, no Teatro Municipal de Dourados. Durante o ensaio, o "autor" Nelson Peixoto e os atores Felipe Trindade, Adrianne Lobo e Gabriela Tjhio falaram sobre o diferencial do trabalho de um grupo de teatro espírita, entre eles o processo de criação em conjunto com a espiritualidade e a complexidade de representar as diferentes encarnações de um mesmo personagem.

A Arte Boa Nova é uma iniciativa de alguns jovens artistas em Campo Grande, que, ao tornarem-se espíritas, decidiram unir o universo fantástico da arte cênica com a mensagem espírita de consolo e esclarecimento. Há 28 anos, a Companhia desenvolve a temática espírita em forma de arte, percorrendo diversas cidades de Mato Grosso do Sul e destaca que as peças são abertas ao público em geral.

Confira a entrevista:

Vozes Espíritas – Como surge a ideia para criação de uma nova peça?

Nelson Peixoto – A criação de um texto com temática espírita, principalmente quando ele é feito por médiuns, tem a participação da espiritualidade, em termos de intuição, de sugestão, de aprofundar a parte filosófica, a parte moral e ética. A contribuição dos espíritos é intensiva, tanto intuitiva quanto de participação mediúnica direta, ocasionalmente. Portanto, a concepção de dramaturgia espírita sempre traz o médium como intermediário e a espiritualidade em auxílio.

Vozes Espíritas – Já vi autores que fazem o final da história primeiro, outros que planejam e só depois escrevem e até quem deixa a imaginação guiar. Você, como organiza o roteiro e realmente começa a escrever?

Nelson Peixoto – A primeira concepção que eu tenho, como escritor espírita, é a concepção moral que a história vai desenvolver. É também apresentada para nós a trilha dramática daquele enredo, porém, detalhes como ele vai terminar a gente só percebe à medida que vai desenvolvendo a própria história com os espíritos. O desfecho, muitas vezes, surpreende até mesmo nós autores, porque não temos o domínio sobre a história, ela pertence a outro, ou seja, é de outra pessoa, mesmo que ela não esteja nesta dimensão. Somos coautores, cooperadores de autores desencarnados para materializar a obra, é, assim, uma parceria que não nos possibilita concluir teses.

Vozes Espíritas – A formação dos personagens é toda do roteirista e diretor ou o ator e a atriz fazem parte dessa criação?

Nelson Peixoto – A obra dramatúrgica espírita quando é composta por médiuns já vem bem orientada e composta, os personagens já vêm estruturados, não há necessidade de interferência tão intensa do ator ou da direção, mas isso não é vedado. À medida que vamos montando o espetáculo essa interferência é livre nos termos de arte.

Vozes Espíritas – Na sinopse da Cela 478 percebemos uma temática causadora de incômodo e pouco abordada: a loucura. Quais os desafios ao escolher trabalhá-la e o porquê da escolha?

Nelson Peixoto – Na verdade a obra não aborda a loucura na sua concepção patológica, ela aborda o conflito da culpa, da mágoa, gerando então uma psicose, uma neurose, trata mais dos desequilíbrios.

Vozes Espíritas – Com quanta antecedência os ensaios começam?

Nelson Peixoto – Em geral cerca de quatro meses, só que, no caso desta peça foram apenas três meses.

Vozes Espíritas – Qual foi a peça mais difícil já encenada?

Felipe Trindade – Bom, eu já fiz três peças aqui no grupo então, acredito que essa atual "Cela 478" foi a mais difícil, a que deu mais trabalho de formular o personagem. Tive menos tempo, porque precisei substituir outro ator que não poderia cumprir agenda, desse modo entrei de última hora. Por conta do prazo, essa foi a mais complicada de entrar no personagem, pegar a montagem da cena e ainda a psicologia do meu personagem, Igor. Ele é em cada momento diferente, o seu temperamento é muito instável e ele traz muitos conflitos de suas vidas anteriores. Acabou mexendo bastante comigo.

Vozes Espíritas – Nos conte de um personagem inesquecível!

Felipe Trindade – Acho que Peter Pan que eu fiz no Shrek. Gostei bastante, porque ele lida com as crianças e por ser um projeto que leva criancas carentes pro teatro. Ver o sorriso delas após a peça te deixa feliz, enxergo um propósito muito bonito nesse trabalho. E, ainda, foi muito legal elas vindo tirar fotos achando que eu era o Peter Pan real.

Vozes Espíritas - Já sofreu algum tipo de discriminação por estar em uma companhia que trabalha a temática espírita?

Felipe Trindade – Dentro da companhia não, mas em alguns anos anteriores já sofri por ser espírita. O pessoal começava a brincar, só que passou. Pela companhia, quando vou divulgar alguma peça o pessoal pergunta como funciona, eu explico e falam surpresos: "Nossa você é espírita!". Uma vez peguei um uber em Campo Grande e ele (o motorista) me contou uma história e, quando soube que eu era espírita, disse: "Fica com Deus, filho!". Como se fosse algo ruim (risos).

Vozes Espíritas – Para você, qual é a melhor parte de atuar no roteiro da Cela 478?

Gabriela Tjhio – Para mim tem sido o desafio de lidar com as diferentes reencarnações da personagem. Entrar nessa personagem e na forma de visualizar a vida de forma contínua, uma passagem de eterno aprendizado. Além disso, tem sido muito bom estar com pessoas desta área já há algum tempo e pessoas novas também que aprendem comigo.

Vozes Espíritas – Qual a sensação de entrar no palco e ver o público ansioso?

Gabriela Tjhio – É muito boa, e a gente lida com dois tipos de público nessa peça, com espírita que já se identifica na história, com a temática, os conflitos, então é muito tocante ver nos olhos das pessoas aquela energia maravilhosa. E também com pessoas simpatizantes de arte e de teatro passando boas vibrações. Está sendo uma experiência maravilhosa!

Vozes Espíritas – Para fechar a nossa entrevista, Adrianne Lobo, por favor, conte como foi sua experiência no grupo.

Adrianne Lobo – Eu comecei com o grupo desde o início, participei de todas as montagens e algumas a gente se identifica mais claro, por qual motivo não sabemos ao certo. Imagino que talvez tenha alguma história parecida em outra vida, mas todas as peças a gente sempre aprende alguma coisa, se identifica com algum personagem, como são muitas que eu já fiz. Vou falar de uma. Eu me identifiquei muito com "Os donos da casa" que foi uma montagem difícil. Começávamos a peça falando em inglês, então tinha toda a problemática de atuar em outra língua, trazer a emoção em um idioma diferente, foi uma história muito profunda sobre as consequências das nossas escolhas.

Vozes Espíritas – E sobre a peça atual, Cela 478?

Adrianne Lobo – Então, nela a minha personagem é a mãe do personagem principal. Eu entro em cena quase no final da peça, mas é uma cena lindíssima de um aprendizado enorme em que a mãe explica para ela a grande lição que a peça transmite: A importância que o amor tem como bálsamo que cura todas as nossas feridas, além de que devemos aproveitar a oportunidade da encarnação e sairmos dessa vida melhores do que chegamos.

A peça foi incrível mais do que qualquer um esperava. Tratou de afetos e desafetos transcendentes de encarnações, nos trouxe o amor como motivo para seguir em frente e falou, ainda, de família – o berço do ser humano – deixando a mensagem clara: Amai a todos sem distinção e esqueçamos nossos conflítos, deixando o orgulho e cultivando o amor.

Autora: Luana Moreno