Diálogo sobre respeito, tolerância, alteridade e amor marcam encontro inter-religioso em Campo Grande

28/02/2018 15h16

"As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos caminhos diferentes desde que alcancemos o mesmo objetivo?", a frase atribuída à Mahatma Gandhi – um dos grandes expoentes do diálogo inter-religioso no planeta, somada ao abraço sincero e profundamente fraternal de três amigos de distintas denominações religiosas podem ser um belo resumo sobre o que o Cristo espera de nós.

Reivindicado nos mais distintos momentos e etapas da humanidade, o nome do Cristo já foi levantado sendo vítima e algoz de perseguições incontáveis, desde a presença tangível do Nazareno no globo terrestre. Em uma tarde de sábado de 2018, mais de mil pessoas se reuniram na cidade de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, para, também em nome dEle, refletir sobre o tema "O que o Cristo espera de nós".

Diante da plateia, três cristãos: a freira católica e doutora em Teologia, Irmã Aíla, o pastor evangélico Eneas Alixandrino e o juiz e conferencista espírita, Haroldo Dutra Dias, deram início ao 1º Diálogo Inter-religioso de Mato Grosso do Sul, provocando reflexões em torno da conduta do cristão na sociedade, na família e perante as religiões. Amigos, irmãos e companheiros de jornada, os três expositores compartilharam, cada um a partir da sua prática religiosa, interpretações e conhecimentos adquiridos ao longo de muito estudo, o que o evangelho cristão apresenta acerca da tolerância, do diálogo e do amor na família e na sociedade.

Pedagogia do Amor - Com cristalina clareza e bom-humor, Irmã Aíla deixa claro sua vivência como professora, ao apresentar de forma didática e próxima a passagem bíblica de Jesus no templo de Jerusalém quando ainda tinha 12 anos de idade (Lucas, capítulo 2, versículos a partir do 41). Com elucidante pertinência, a passagem foi apresentada como um exemplo de postura cristã ante às religiões e à família. Segundo a Irmã, no diálogo que o menino Jesus trava com os doutores da Lei podem ser observados os passos exemplares para o diálogo inter e intra-religioso. "Jesus escuta, pergunta e só depois posiciona sua compreensão acerca daquele assunto, sem criticar", apontou.

Ainda de forma muito pedagógica, Aíla apresenta que o mesmo texto pode ser observado para a compreensão do diálogo em família. "Nem todo membro da nossa família crê como nós", lembrou a religiosa, destacando os sentimentos de Maria e José diante da procura pelo menino Jesus e a excelssitude do Mestre ainda garoto, quando alerta que ele só poderia estar envolvido "nas coisas do Pai". A irmã ainda ressaltou a importância de a religião consistir em um "relacionamento pessoal, íntimo e profundo com Deus".

A tolerância como lema - Tomando o versículo 4, do capítulo 4 do Evangelho de João como base da discussão, o pastor Enéas elucidou pontos da passagem bíblica que demonstram as exímias sabedoria e tolerância de Jesus ao optar pela passagem por Samaria quando em destino à Galileia encontra a mulher samaritana. "Jesus fez uma escolha consciente quebrando paradigmas e tabus de 500 anos. A primeira intolerância que Jesus quebra nessa passagem é a intolerância do sexismo", apontou Eneas sob aplausos da plateia. Contextualizando conflitos históricos existentes na região entre samaritanos e judeus, e ainda, da posição inferior que a mulher ocupava naquela sociedade, o pastor ressaltou a relevância do ato de Jesus ao pedir água à samaritana.

"Assim como Jesus o fez, não devemos assumir nas nossas relações interpessoais posição de superioridade. Nós precisamos uns dos outros, precisamos aprender a compartilhar, precisamos nos despir de uma falsa espiritualidade na qual não sabemos respeitar o diferente", lançou o pastor. Eneas ainda destacou a questão do ódio compartilhado nas redes sociais, da necessidade da alteridade em todos os círculos sociais, na política e na religião, lembrando ainda que as religiões afrodescendentes estão entre as que mais sofrem preconceito no Brasil, e declarou ter medo de uma falsa espiritualidade que esconde o lado humano de cada um.

Vida prática - Demonstrando que o diálogo entre religiões distintas vai além de conferências e palavras, Haroldo Dutra optou por dar "testemunhos da vida prática", compartilhando vivências em que Aíla, Eneas e ele passaram juntos, nas alegrias e tristezas da vida humana, para além de um momento social. "Antes de termos um espírita, uma freira e um pastor, temos aqui três profundos amigos", destacou, acrescentando que não é possível ter diálogo inter-religioso eficaz e produtivo se não começar pela amizade nas relações pessoais.

"Não podemos ver as pessoas primeiro como religiosas e depois como seres humanos", disse o juiz. Segundo ele, o diálogo genuíno se mostra quando não tem exigências – "não é uma espionagem, com esperança de conversão", e que Deus transcende semelhanças e diferenças: "Deus não cabe em gaiolas". O pesquisador dos textos bíblicos ressaltou que os três expositores ali estão não com compromissos institucionais, mas com compromissos do amor. "É uma bênção ter amigos como esses".

Respondendo a perguntas da plateia, o diálogo ainda levantou outros questionamentos sobre a educação para a tolerância, o direito à expressão e ao fato de não ser necessário anular suas convicções para respeitar a do outro. Assim, a tarde do dia 24 de fevereiro, em Campo Grande, reservou, ao contrário de tantas outras na história humana, uma reunião em que o nome do Cristo foi levantado para tratar do que consensualmente representa a figura de Jesus: o amor indistinto à Deus e ao próximo.

Autora: Kárita Sena para AJES-MS