Toda ausência é cheia de presença

06/08/2018 07h36

Foto: Lígia Bento - Olhares.com Foto: Lígia Bento - Olhares.com

Quando a forma de ver o mundo estabelece o que faz sentido

Antes que você me chame de louca, não que isso seja mentira, considerando que tudo é relativo, vou logo argumentando que esse título faz todo sentido, se, pelo menos, por um instante, você considerar o meu raciocínio.

Quando nos sentimos sós, sofremos com o fato do outro não estar ao nosso lado, certo? O outro que pode ser alguém que já conhecemos ou pode ser alguém que não conhecemos, mas idealizamos. O outro pode não estar fisicamente, concretamente ao nosso lado, ou pode estar ao alcance dos nossos dedos, mas com a cabeça longe e mais do que isso, com o coração do lado oposto do universo.

Evidentemente, que sempre queremos saber como o outro está em relação a nós, no entanto, especificamente nesse texto, isso não faz muita diferença. Tá acompanhando o meu pensamento? Não se perca no caminho. Veja só: se a ausência é a falta de alguém ou alguma coisa que não sai da nossa cabeça, logo, ela não passa de uma ilusão porque o objeto que nos faz falta está em nós, em cada elemento que verificamos, em cada segundo que passa.

Agora vamos teorizar um pouco essa explanação. Pode-se conceber o espírito sem a matéria e a matéria sem o espírito? Pode-se, sem dúvida, pelo pensamento. Viu só, não fui eu que disse isso. Trata-se da pergunta número 26 de "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec. Continuemos. O vazio absoluto existe em alguma parte no espaço universal? Não, nada é vazio. O que imagineis como vazio é ocupado por uma matéria que escapa aos vossos sentidos e aos vossos instrumentos. Essa também não é uma ponderação minha. É a pergunta 36 do mesmo livro já citado.

Muita gente está procurando os consultórios hoje em dia relatando uma sensação imensa de vazio, de solidão, de ausência. O que elas não percebem é que a solidão é cheia. Assim como o vazio e a ausência. É mais fácil não pararmos pra pensar. Dá menos trabalho, nos coloca numa posição de passividade diante do mundo e das pessoas.

Joanna de Ângelis, por meio da psicografia de Divaldo Franco, reflete sobre a solidão, no livro "O Homem Integral". Ela diz que a solidão é uma das questões mais graves da sociedade atual e que o homem tem uma extrema necessidade de ser amado, não de conquistar o amor e se amar, por isso se sente tão sozinho. Exceto nos casos patológicos, afirma Joanna, que o homem solitário é alguém que tem receio de se descobrir, de se conhecer. Vale a pena ler esse texto completo. Fica como sugestão pra você.

Como podemos não ser influenciados por elementos tão constantes no mundo de hoje? É óbvio que é muito difícil não se sentir solitário, assim como é quase impossível ver presença na ausência. É óbvio que é mais fácil nos sentirmos infelizes. A sociedade ampara essas sensações. Desafiador é tentarmos sair dessa frequência. É ter ouvidos contemplativos quando ninguém quer saber do outro profundamente. Desafiador é deixarmos o discurso pronto e tentarmos nos colocar na realidade de quem sofre ou de quem faz sofrer. Sim, porque sempre há o outro lado. Não é porque uma resposta não nos satisfaz, que ela esteja errada. Pode não haver alguém errado. Pode haver uma circunstância desfavorável, uma dúvida, uma ponderação ainda não madura, ou sim, madura, mas que não corresponda com o esperado. Sempre há algo em cada espaço.

Antes de terminar esse texto quero agradecê-lo por haver chegado até aqui. Sei que não foi um texto fácil. A conclusão que apresento não é minha. É uma nota de Kardec na questão 35 de "O Livro dos Espíritos". "Supondo-se um limite ao espaço, por mais distante que o pensamento possa concebê-lo, a razão diz que além desse limite há alguma coisa, e, assim, sucessivamente, até o infinito; porém, se essa alguma coisa fosse o vazio absoluto, ainda seria espaço". Olha como a física está presente no espiritismo. Sempre há algo em cada milímetro de pensamento. E sempre há Deus, que está em tudo e em todos os lugares, nos fazendo companhia. Presença confirmada...

Autora: Luciana Vicente - jornalista