Por que é necessário aprender a perdoar?

22/02/2018 21h08

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Quem nunca sentiu ódio ou raiva, tendo conhecimento de algum crime bárbaro?

Vivemos períodos conturbados onde percebemos que as pessoas estão com um nível de intolerância muito alto. Já cansada de tantas exposições envolvendo crimes e injustiças, a população se revolta intimamente e clama pela punição dos supostos culpados, cheia de raiva e ódio em seus corações e pensamentos. As redes sociais se tornaram o muro das lamentações e as paredes de fuzilamento, onde frequentemente circulam mensagens, nem sempre verdadeiras, mas que contribuem para aumentar esta indignação coletiva. Será que estamos sendo corretos? De onde vêm todas estas emoções inferiores que se revelam em nossos sentimentos?

Considerando a continuidade da vida e que todos nós já tivemos várias existências, formamos no decorrer do tempo um repositório de informações relativas a estas vivências, onde registramos acontecimentos e experiências. É como se tivéssemos em nossos inconscientes a história toda da humanidade. Esta é a definição de inconsciente coletivo.

Em cada nova existência, é-nos concedida a dádiva de esquecermos as vivências passadas, para não ficarmos imersos em arrependimentos, remorsos ou traumas. No entanto, as estruturas psicológicas e emocionais desenvolvidas com estas vivências ficam gravadas em nosso ser, como um conjunto de crenças e valores comportamentais básicos que são passados de geração para geração. Não temos capacidade de acessar todas estas informações, enquanto estamos habitando um corpo físico e limitado e, mesmo no plano espiritual, só teremos acesso a tudo isto quando estivermos em um nível evolutivo muito alto; porém somos sensíveis a este conteúdo.

Todos nós já experimentamos algum tipo de forte emoção ao tomarmos conhecimento de determinado fato, mesmo que nunca tenhamos vivenciado ou presenciado o mesmo. Qual é, então, o mecanismo que desencadeia esta reação em cada indivíduo? Vamos exemplificar: é trazido a nosso conhecimento que uma pessoa foi enforcada. De súbito, já vem uma sensação horrível, como se soubéssemos que tipo de dor e aflição a pessoa sente quando passa por isto. Seria isto uma percepção nossa ou alguma impressão recuperada de nosso inconsciente coletivo?

Indo além, por que determinado tipo de acontecimento nos gera uma indignação tão grande, que, por vezes, sentimo-nos cegados pelo tipo de emoção que se manifesta? Quem nunca sentiu ódio ou raiva, tendo conhecimento de algum crime bárbaro? Quem nunca sentiu a vontade de que o executor de tal crime fosse punido da mesma maneira? Seria isto manifestação de senso de justiça ou seria uma projeção de conteúdo que consta em nosso inconsciente coletivo e que nos incomoda profundamente. Afinal, já teríamos sucumbido ou vivenciado o mesmo tipo de crime? Será que já fomos vítimas de algo tão atroz? Ou será que já fomos autores?

Embora assustador, precisamos encarar a realidade e ter a consciência de que, se ainda estamos aqui, passando por existências físicas, é porque temos resgates a efetuar, provas e expiações para encarar. Ou seja, não somos inocentes e estamos longe de sermos seres evoluídos e bons.

Acredito que agora tenhamos conseguido entender porque é necessário aprender a perdoar, porque devemos ser mais tolerantes e de onde vêm estes sentimentos inferiores que nos inundam.

Temos que tomar muito cuidado com nossas emoções, pois, atirando a primeira pedra, corremos o risco de acertar nossa própria imagem em um espelho.

Ainda temos que considerar os relacionamentos pessoais existenciais que também são parte de nossas vivências. Julgando alguém severamente, além de podermos estar julgando atos já praticados por nós mesmos, podemos estar condenando nosso pai, mãe, irmão, marido, esposa, filho ou filha, de uma existência passada ou futura.

Allan Kardec, no livro Obras Póstumas, defende que o exercício da indulgência, que é a postura tolerante e compreensiva diante dos erros dos outros, poupa-nos do sofrimento por estes erros, estimulando o exercício da nossa piedade e a abstenção da nossa cólera.

Autor: André Franchi - servidor público