O veneno que mais mata

16/10/2018 19h02

O sofrimento armazenado e seus reflexos

Nem cicuta, nem arsênico, o veneno que mais mata no mundo é outro. Não há levantamentos estatísticos a respeito, mas me atrevo a dizer que os sentimentos mal administrados por nós são altamente corrosivos e, por isso, capazes de abalar as nossas estruturas mais íntimas.

Sabe aquela atitude grosseira que alguém teve conosco e que ficamos remoendo por anos? Ou uma injustiça que sofremos que prejudicou o nosso desenvolvimento? Ou aquela história de amor que acabou pior do que a gente desejava e que nos feriu profundamente? É disso que estou falando. Quando não conseguimos nos livrar da mágoa estamos automaticamente recebendo doses diárias de veneno.

No livro "Florações Evangélicas", Joanna de Angelis, através da psicografia de Divaldo Franco, escreve sobre a mágoa. "A mágoa pode ser comparada à ferrugem perniciosa que destrói o metal em que se origina". E não é só isso: "A mágoa, não obstante desgovernar aquele que a vitaliza, emite verdadeiros dardos morbíficos que atingem outras vítimas incautas, aquelas que se fizeram as causadoras conscientes ou não do seu nascimento". Ou seja, a mágoa causa desequilíbrio em quem a possui e também prejudica aquele que a causou. O problema é que nem sempre percebemos que a mágoa faz mal pra gente. Segundo Joanna, "o teu ofensor merece tua compaixão, nunca o teu revide. Aquele que te persegue sofre desequilíbrios que ignoras e não é justo que te afundes, com ele, no fosso da sua animosidade".

Você pode estar pensando que em tese é fácil afirmar que precisamos nos livrar da mágoa, mas colocar isso em prática é que é difícil. Eu serei obrigada a concordar. Realmente é complicado. E não pense que por estar escrevendo sobre isso tenho todas as respostas do mundo. Pelo contrário. Fazer com que a mágoa deixe de nos habitar é um desafio gigantesco. Como conseguir isso? Joanna de Angelis novamente pode nos esclarecer. "Seja qual for a dificuldade que te impulsione à mágoa, reage, mediante a renovação de propósitos, não valorizando ofensas nem considerando ofensores. Através do cultivo de pensamentos salutares, pairarás acima das viciações mentais que agasalham esses miasmas mortíferos que, infelizmente, se alastram pela Terra de hoje, pestilenciais, danosos, aniquiladores."

Então, agora, já temos uma pista. Quando a mágoa nos ferir um bom caminho é o da oração silenciosa. É importante dizer isso porque quando estamos tomados por ela nos colocamos automaticamente numa posição de vítimas da situação. Esquecemos que temos o livre-arbítrio de aceitar ou não que esse sentimento corrosivo permaneça em nós. Pode ser que não consigamos nos libertar disso de uma hora pra outra. Não importa. Entender que nos faz mal sentir mágoa é o primeiro passo para mantermos nossa saúde mental e não apenas isso. Estamos falando aqui de algo muito mais abrangente. Estamos tratando claramente da nossa saúde física e também espiritual. Tudo está intimamente relacionado. O que se manifesta no nosso corpo é o efeito cuja causa pode estar nos habitando há muito tempo.

André Luiz, através da psicografia de Chico Xavier, também trata do tema no livro "Sinal Verde". "Se você tem qualquer mágoa remanescendo da véspera comece o dia à maneira do Sol: esquecendo a sombra e brilhando de novo".

Acredite ou não, até Chico Xavier já sentiu mágoa. Chico tinha um cachorro deficiente que dava um trabalho danado. Ele cuidava do bichinho com seu pequeno salário. Um dia, quando voltou do trabalho, encontrou o cachorro agonizando. O animal não resistiu e morreu. Chico ficou muito triste. Meses depois, suas irmãs contaram que o cachorro havia sido envenenado por uma mulher que ele conhecia. Foi impossível não sentir mágoa. Ocorre, que o sentimento estava atrapalhando a comunicação com os bons espíritos, gerando uma sombra. Emmanuel disse a ele que o caminho para se libertar seria dar uma grande alegria à mulher. Chico descobriu que ela queria muito uma máquina de costura. Mesmo ficando endividado ele comprou o equipamento e deu de presente. A mulher ficou tão comovida que o abraçou profundamente num sentimento de franca gratidão. Então, aquela luz sincera afastou a sombra que envolvia Chico. Ele a perdoou e continuou lindamente sua missão mediúnica.

Vamos perdoar primeiro a nós mesmos e depois aos outros. Vamos mandar a mágoa embora e recomeçar.

Autora: Luciana Vicente – jornalista