O valor do que não tem preço

11/11/2018 10h47

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Quando as cifras perdem espaço

Um belo dia eu acordei com esse título na cabeça e comecei a compor elementos para escrever um artigo, mas ainda faltava um temperinho para abrir o texto. Pensei: "acho que estou trabalhando demais e precisando de um descanso para as ideias fluírem mais facilmente". Aí, decidi tirar um sábado para ir ao cinema. Sabe quando você assiste vários filmes, um na sequência do outro? Eu adoro fazer isso, principalmente quando há histórias boas em cartaz, longe daquela linha comercial. Não é que minha intuição funcionou? Os filmes que vi foram ótimos. Indiscutivelmente. Mas, o que me chamou a atenção mesmo e tem a ver com a proposta é o que vou narrar agora.

No cinema que eu gosto de ir tem um banco muito grande e largo em que as pessoas sentam dos dois lados enquanto aguardam as salas abrirem. Muito bem. Estava sentada no meio, com gente do lado esquerdo, direito e também atrás de mim. Não quero que pense que fico bisbilhotando a vida das pessoas porque isso não é verdade. Só não posso impedir, felizmente, meus ouvidos de ouvir. Sou uma leitora de cotidianos.

Tinha um casal perto que começou a discutir. O moço e a moça estavam com uma viagem marcada e, aparentemente, ela tinha menos dinheiro do que ele. A menina perguntou se caso o dinheiro dela faltasse no meio da viagem, se ele poderia emprestar. O rapaz respondeu que não. Afinal, o dinheiro era dele, conseguido com o esforço pessoal. A discussão seguiu uns bons minutos e ele manteve o discurso de não dividir o dinheiro. É nessa parte que entramos no nosso tema de hoje.

O rapaz negou o dinheiro. O dinheiro pode comprar coisas que possuem um preço. A questão é que o gesto dele também tem um valor. Nessa situação, um enorme valor negativo do ponto de vista emocional. Obviamente, há outras linhas de interpretação. Por que negativo? Negativo porque se estamos falando num casal, estamos falando de compartilhamento. Se não é pra compartilhar, pra que unir? Já parou pra pensar quantas e quantas pessoas vivem "relações", mas agem só pensando nelas próprias? É importante manter a individualidade, claro, ou seja, você não vai deixar de gostar de pizza de calabresa porque seu parceiro prefere a de brócolis. Quero dizer com isso que ninguém pode se anular. No entanto, é preciso perceber que o valor de uma relação está no compartilhamento, na cumplicidade, na confiança.

Além disso, há muitas outras coisas que possuem valor, mas não possuem preço. Um momento vivenciado que ficará pra sempre em nossas memórias, um sorriso, uma paisagem, uma descoberta. E também os valores negativos, como uma decepção, uma dor, uma interpretação equivocada que acabou nos prejudicando. Enfim, eu poderia ficar horas e horas falando sobre isso.

Não tem aquele versículo da bíblia que diz que onde estiver o nosso tesouro estará o nosso coração? Se o nosso tesouro são os bens materiais é aí que estará o nosso coração, cercado de coisas capazes de comprar, mas sem valor nenhum.

Pra concluir esse raciocínio, vou contar outra historinha, reflexo da minha leitura de cotidianos. Um casal de idosos estava andando na rua. Os dois muito elegantes desfilavam bonitos, de mãos dadas. Chegou a hora de atravessar a rua. Era, pra ser mais exata, uma avenida. E bem movimentada, diga-se de passagem. O semáforo estava fechado para os pedestres, mas naquele momento não passava carro algum. O senhor fez menção de seguir adiante. Não sei de onde ela tirou forças, mas a senhorinha o segurou firmemente e deu uma bronca danada. "Meu bem, nós já somos idosos. Não tá passando carro nenhum, mas nossa musculatura pode falhar, nós podemos dar um passo em falso. Vamos esperar e atravessar com calma". Ele atendeu sem ralhar. Agora me diga: esse gesto tem ou não tem um valor inestimável? É ou não é um compartilhamento?

Até quando vamos passar a vida vendo o preço das coisas? Fazendo cálculos pra saber se seremos ou não capazes de comprar um utensílio novo. Mais do que isso. Quantos não fazem de suas vidas uma eterna negociação? Uma pessoa que fica com outra só se ela tem um patrimônio monetário a oferecer...

Não sei você, mas eu concluo que valor é fortuna sem preço.

Autora: Luciana Vicente - jornalista