O que não tem mais jeito de dissimular

02/04/2018 15h04

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Acendi um incenso, abri as janelas e parei para olhar o horizonte. Fiquei assim por horas antes de começar a escrever, numa tentativa de abordar o tema que tenho em mente com a delicadeza que eu acho que merece, sem ser clichê, com respostas prontas e repetidas.

Dia desses li uma reportagem numa importante agência de notícias internacional. Depois, cheguei a ver o mesmo artigo em sites brasileiros. O texto, muito bom, por sinal, conta a história de uma brasileira, hoje com 71 anos. Ela nasceu numa cidade pequena do interior paulista, cujo nome não foi revelado. Ela, na verdade nasceu ele, mas sempre se sentiu menina. Tinha uma identidade feminina num corpo masculino.

Os anos passaram e nada dela se encontrar. Até que um dia procurou um médico. Esse médico, estudando detalhadamente sua condição, a levou para uma especialista da capital que a encaminhou para outro médico renomado. Todos chegaram a uma mesma conclusão. A paciente só se sentiria plena se o seu corpo revelasse quem ela de fato era.

Na época, não eram feitas no Brasil cirurgias de mudança de sexo. O médico estudou, se preparou e fez a operação, que foi bem-sucedida. Foi um pioneiro no país. Anos depois, a mulher procurou a justiça porque queria trocar o nome do documento de identidade, onde ainda aparecia como homem. Foi quando o caso foi descoberto pelo Ministério Público paulista. Era época da ditadura. Nossa personagem foi obrigada a se apresentar como se fosse uma criminosa. Foi fotografada de todas as formas e chegaram até a introduzir um espéculo em seu corpo com uma fita métrica para verificar se ela de fato era mulher.

O médico foi indiciado por lesão corporal grave e teve a prisão decretada. Na sentença dada a ele a justiça determinou que a paciente fosse submetida a um tratamento psicanalítico de longa duração, para curá-la. Se esse tratamento ocorreu ou não, não sei dizer. A reportagem não conta. De qualquer forma, se ocorreu não pode ter sido psicanalítico, muito pelo contrário, porque qualquer coisa nessa linha seria pseudo-psicanálise. Aliás, penso que essa averiguação de fatos resultaria numa incrível tese. Mas isso não vem ao caso agora.

Eu já li muitos textos, inclusive alguns deles espíritas (equivocados), rotulando e fatalmente condenando, homossexuais, transexuais, transgêneros por sua condição nesse mundo. Já li também bons textos, é verdade. No entanto, resolvi não aceitar interpretações de terceiros, que por melhor intencionados que possam ser, também sofrem a influência da sociedade em que vivemos, que ainda é bastante preconceituosa.

Procurei a obra-base do espiritismo, "O Livro dos Espíritos", publicado em 1857, veja só há quanto tempo, pra tentar encontrar algo que condenasse aquele pode não ser como a maioria, mas que também tem o direito de buscar a felicidade. Não encontrei nenhuma condenação, mas achei uma explicação que pra mim é suficiente. Os espíritos têm sexo? Esse é o enunciado de uma das questões. A resposta: "Não como o entendeis, porque os sexos dependem da constituição orgânica. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na afinidade de sentimentos." Um comentário de Kardec vem logo na sequência: "Os Espíritos encarnam-se homens ou mulheres, porque não têm sexo. Como devem progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, oferece-lhes provas e deveres especiais, e novas ocasiões de adquirir experiências. Aquele que fosse sempre homem, só saberia o que sabem os homens."

Aí, eu me pergunto, será que a personagem da reportagem citada não veio com a missão de passar por essa cirurgia, para ter a liberdade de escolha? Não tenho essa resposta e nem preciso tê-la. A questão é outra. Por que muitos de nós precisam, ainda nos dias atuais, julgar e fatalmente condenar quem busca apenas poder ser quem é? O espiritismo não condena, esclarece.

Você deve ter percebido que escolhi como título, o verso de uma música de Chico Buarque do tempo da ditatura, justamente pra mostrar que os anos de chumbo não estão assim tão distantes de nós em muitos aspectos.

Me diga, eu gostaria de saber: consegui fugir dos clichês ao falar de um tema tão delicado como esse?

Autora: Luciana Vicente – jornalista