O processo eleitoral de 2018 te abalou?

08/11/2018 19h14

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Após esse singular período eleitoral que se passou e que nos trouxe uma enxurrada de emoções e sentimentos controversos, eu te pergunto: E aí, esse processo eleitoral te abalou? A intenção aqui não é falar sobre posicionamentos políticos e partidarismo, acredito que a grande maioria já esteja cansada disso, mas sim sobre como o evento político conseguiu mexer com o comportamento e o aspecto psicológico das pessoas.

Durante essas disputas eleitorais presenciamos, surpreendidos e espantados, a forma com que este evento coletivo conseguiu interferir em nossas vidas, gerando conflitos, desentendimentos e mágoas. Amigos brigaram e deixaram de se falar apenas porque pensavam diferente, digladiaram por horas na intenção de fazer prevalecer seus pontos de vista. Familiares discutiram e se acusaram em virtude da discordância política, houve até quem sugerisse que daqui para frente, antes de conhecer qualquer namorado, seria imprescindível saber em quem ele votou, é mole?

Esses momentos nos trouxeram muito aprendizado e uma consideração inevitável. Mostrou o quanto ainda somos emocionalmente e psicologicamente frágeis. Impressionou bastante a forma e a facilidade com que naturalmente sintonizamos com os discursos criados pelos partidos políticos, que em sua maioria, neste período, manifestaram e pregaram o ódio, difundiram o medo sobre um futuro incerto e ainda praticam o exercício constante do julgamento alheio expondo, exaustivamente, as falhas e defeitos do adversário. Inconscientemente as pessoas passavam de meros telespectadores da discórdia a protagonistas do duelo, quase que sem perceber.

Diante disso, ficou claro como qualquer evento coletivo consegue modificar e abalar o nosso emocional e como as vibrações da grande massa interferem em nossos atos e pensamentos, sem que por vezes o percebamos. É como se as densas vibrações que envolviam o cenário de disputa eleitoral funcionassem como um "buraco negro" sugando quase todos que estivessem presenciando o ocorrido. A velha máxima da atração e sintonia vibracional dessa vez nos mostrou que ainda não temos as ferramentas de defesa e vigília que pensávamos ser adequadas para que não nos envolvêssemos nessas densas vibrações. Sem querer nos pegamos praticando justamente o que tanto combatemos: a intolerância, a impaciência e o julgamento.

E nós espíritas, como nos comportamos diante deste cenário? Indago especificamente a nós espíritas não porque sejamos melhores que os demais, nada disso! Mas sim porque temos acesso as variadas formas de instrução e esclarecimentos espirituais e morais (não que isso também seja privilegio, o conhecimento está ao alcance de todos) e ainda assim recaímos nos mesmos erros.

Nem mesmo a enorme quantidade de livros, artigos, mensagens e comunicações dos amigos espirituais parecem ter sido suficientes para que nós nos abstivéssemos de adentrar nesse mundo de discórdia e desavenças, mesmo tendo a consciência dos dias conturbados que virão em decorrência da transição planetária pela qual passa nosso planeta Terra. Temos o conhecimento do poder que a palavra e o pensamento possuem e consequentemente do reflexo que geram em nosso campo vibracional, sabemos da importância do "vigiai e orai", e ainda assim, inconsequentemente, perfilamos ao lado dos que não se contêm em ficar de fora de uma discussão inútil, de uma corrente de menosprezo aos que discordam de nossa opinião, de uma palavra mais áspera aos que pensam ao contrário.

Nos preparamos para lidar com a morte do corpo, mas não conseguimos trazer todo o conhecimento que possuímos para nos comportar diante de um processo eleitoral conturbado. Seria falta de fé na vontade divina? No comando e planejamento de Deus? Se a própria crucificação de Jesus esteve sob os cuidados e regência divina, que diremos da escolha de um presidente?

Como espírita que sou, não me incluo fora dos que falharam. Fico feliz por ter conseguido me abster das discussões inflamadas, inclusive nas redes sociais. Entretanto, ao ler e acompanhar o desenrolar dos desentendimentos me peguei, por inúmeras vezes, criticando, sendo intolerante e julgando os demais em outro tipo de rede, a rede íntima, a rede dos próprios pensamentos. De que adiantou o esforço para se conter, se por dentro o sentimento era o mesmo? Afinal onde fica o exercício das lições que Jesus nos ensinou e que tanto estudamos? Não serão "bem-aventurados os brandos e pacíficos"? Para onde foi o aprendizado da passagem em que Jesus ordena: "Mete no seu lugar a tua espada, porque quem pela espada fere, pela espada será ferido" (Mateus 26:52)? E quando falou sobre dar a outra face quando insultado?

O ser humano possui facilidade em enxergar os aspectos que divergem e desagregam e por muitas vezes acabamos esquecendo de visualizar o lado positivo das coisas, as particularidades que nos unem. Um exercício que me ajudou bastante nesse momento foi pensar que todas as pessoas, seja qual for o lado político que defendam, em sua essência, estão querendo e pensando no melhor para o país. Seja qual for a sua preferência política e os motivos que determinaram a sua escolha, nos agrade ou não, estão pensando na escolha que lhes parece melhor para a coletividade. Então por que julgar, brigar ou menosprezar o seu posicionamento? Cada qual teve suas experiências, suas vivências e educação que lhe conduziu a optar por este ou aquele programa de governo, devemos exercer a compreensão e o respeito ao próximo.

Independente do presidenciável X ou Y sair vitorioso, o problema continua residindo em nós mesmos, que teimamos em espelhar nossas falhas na figura de nossos representantes e, mais uma vez, adiamos a própria autocrítica, convertendo ingenuamente o orgulho e os erros que moram dentro de nós em ideais partidários que nos servem como desculpas ilusórias para a continuidade da cegueira própria.

Não afirmo que devemos ser submissos a tudo e que devemos aceitar injustiças de cabeça baixa, mas é preciso discutir pontos de vista, sem ódio, sem revanchismo, com respeito ao próximo, debatendo as ideias e não combatendo as pessoas, afinal de contas, como vimos, todos querem o bem, não é mesmo?

Apesar de todo o embaraço por que passamos, nada acontece sem uma finalidade maior, tudo que vivenciamos nos trará mais aprendizado e conhecimentos. Restou a certeza de que ainda temos muito o que crescer, aprender e nos fortalecer espiritualmente.

Que neste momento conturbado nós possamos orar e emanar boas vibrações para os irmãos que foram eleitos, pois possuem uma grandiosa e árdua missão de auxiliar o progresso da pátria do evangelho e, portanto, necessitarão de todo amparo e auxílio. Que dessas eleições fique o aprendizado para que da próxima vez que nos depararmos com opiniões e interesses conflitantes, possamos exercer o voto que o Cristo nos ensinou, o voto da tolerância, do amor, da fraternidade, e sobretudo do respeito que devemos ter uns com os outros. Esse voto nunca será equivocado.

Autor: Raphael Luis Teles – Servidor Público