No reino das línguas perdidas

27/11/2018 08h58

Era uma vez, num mundo interior, havia uma moradora que não conseguia saber para onde ir. Os caminhos que apareciam não eram suficientemente iluminados. Então, em momentos nem tão raros assim, mesmo sem certezas, mas sempre buscando algo, ela ia, de um lado ao outro, querendo um par de ouvidos, alguém que permitisse toda sua expressão. Nossa, e como ela se sentia bem quando podia discursar em verso e prosa. Um dia, ela se preparou com as mais belas palavras e partiu em disparada. Assim que encontrou o primeiro par de ouvidos, parou e começou a falar. Mas esses ouvidos estavam cansados. Não quiseram prestar a atenção em nada. Ela não desanimou, procurou outros tantos e novamente foi impedida de falar. Essa sequência de impedimentos deixou a protagonista desse texto muito magoada. O tempo passou. A simples necessidade de falar foi substituída pelo desejo de causar uma reação. Só ser ouvida não era mais suficiente. A língua que antes era perdida porque não sabia que caminho seguir, ou seja, convivia diariamente com a dúvida, agora se perdeu de outra forma muito mais significativa. Se perdeu de sua consciência. Na prática, isso passou a significar que a língua perdeu todos os limites. Não importava se iria agredir, o essencial é que seria notada.

Com essa nova postura, não havia quem desconhecesse sua passagem. Ela era notícia. Os jornais estampavam na primeira página: "Língua perdida faz mais uma vítima". Às vezes, ela acertava mais de uma pessoa com uma frase só. Todos fugiam dela, mas ela aparecia quando se menos esperava, causando rastros, evidenciando dores, sofrimentos, danos irremediáveis. Deixando o cenário dos contos de fadas e vindo para a nossa vida cotidiana, quem aqui pode garantir com certeza que nunca disse uma palavra indevida? Que nunca feriu, que nunca magoou? Se alguém escapou disso que atire a primeira pedra. Acho que já disseram isso antes. Aliás, alguém bem mais desenvolvido do que eu. Creio que já tenha escrito em artigos anteriores que pra mim a mais letal de todas as armas é a nossa língua. Com ela matamos boas intenções, paradoxalmente, com ela podemos fortalecer o outro também.

O tiro pode ser direto, no nosso contexto, podemos dizer o que pensamos de frente e o outro pode cair ou pode ficar em pé, pode silenciar ou pode devolver com outras palavras. Ocorre, que o tiro também pode ser indireto. Sabe quando você está jogando sinuca e entende que não vai conseguir acertar uma bola mirando diretamente nela porque existem outras na frente? Aí, você precisa fazê-la acertar a tabela, desviar do caminho para atingir seu alvo? Pois é, o mesmo também ocorre no campo das palavras. Na prática, o que eu quero dizer é que nessa situação a palavra age em nome da intriga e da fofoca. Já aconteceu com você de alguém importante para o seu coração que mudou o comportamento sem um motivo claro, repentinamente, e anos depois você descobriu que isso ocorreu porque um terceiro inventou coisas, mentiu? Meu caro, você foi atingido em cheio por uma língua perdida. Língua perdida que encontrou o caminho da perdição, com o perdão do trocadilho. Quantas relações são rompidas pela maldade alheia? Quantos profissionais são demitidos depois que "colegas" com olhos somente para si acusaram, humilharam, jogaram o outro na fogueira? O pior é quando você não tem a menor ideia do que disseram sobre você. Você pode ter perdido o amor da sua vida sem saber o que fez de errado. Isso é péssimo? Sim, é terrível. Mas, reflita comigo. Pior do que ser atingido por uma língua perdida é saber que a sua própria língua atingiu o outro, ou seja, é saber que a sua língua se perdeu do caminho da consciência tranquila para se achar na classificação das armas letais.

Para encerrar, voltando ao universo dos contos de fadas, não se iluda. Se existe o reino das línguas perdidas, existe também o reino da transparência. Nele só vive a verdade. E a verdade, meu amigo, pode até demorar a aparecer, mas chega uma hora em que ela emerge com força total. Sabe a razão? Porque a verdade tem a mais bela e forte de todas as vozes. Ela fala a língua do sentimento. Sentimento tem luz própria. Aparece sem emitir um único som.

Luciana Vicente é jornalista