Não é só loja que fecha pra balanço

28/02/2018 15h02

Cameron Gray Cameron Gray

O título desse artigo é esse mesmo. Você não leu errado, não. Não é só loja que fecha pra balanço. As pessoas também fecham, ou, pelo menos na minha opinião, também deveriam fechar. Como assim fechar pra balanço? Eu explico. Isso significa, parar para refletir. Na era da velocidade da internet, dos carros, da urgência em todos os setores da vida, é difícil parar para pensar no que estamos fazendo com a gente, com o outro, com a vida que temos.

Talvez eu seja uma das maiores defensoras do que alguns chamam de período sabático. Até porque minha natureza é reflexiva. No entanto, nem todos têm essa disposição. Pra dar respostas socialmente aceitas num mundo de aparências, muitos se recusam a enxergar o resultado de suas escolhas, e até mesmo a parar para avaliar se o caminho que estão seguindo é mesmo o que gostariam de estar.

Nesse sentido, permanecer em contato com você mesmo, sem influência de terceiros é um mecanismo importante de autoconhecimento. O tempo que cada um precisa para amadurecer as ideias e sair desse período de introspecção é muito relativo. Não existe bula de remédio pra isso. Cada um tem uma necessidade. Cada um mergulha numa profundidade diferente. É importante frisar que o processo é individual. Podemos ter bons conselheiros, bons terapeutas, amigos de verdade por perto. Mas, não podemos nos perder do foco. O que é bom para o outro, pode não ser bom pra gente. Portanto, devemos, sim, considerar a opinião dos outros, mas a voz que tem de falar mais alto é a nossa. Só nós sabemos o que queremos intimamente.

Joanna de Angelis, no livro "O homem integral", num textinho chamado "Consciência e Ética", fala da importância desse mergulho interior. "À medida que o homem se penetra, mais amadurece psicologicamente, saindo da proteção fictícia em que se esconde – dependência da mãe, da infância, do medo, da ansiedade, do ódio e do ressentimento, da solidão – para assumir a sua identidade, a sua humanidade.

Ou seja, sempre que sentirmos necessidade, devemos tirar o pé do acelerador, olhar ao nosso redor, olhar para os rumos que estamos nos dando. Só que tem um detalhe. De forma alguma isso deve significar um eterno isolamento. Trata-se de um período necessário para colocarmos a casa em ordem. Sem tempo definido. Pode durar um mês, um ano, dois, três, mas não pode durar pra sempre. A eterna introspecção pode nos isolar socialmente. Temos que ver as coisas com clareza.

O Livro dos Espíritos fala sobre a vida de isolamento entre as perguntas 769 e 772 e classifica como duplo egoísmo a conduta dos homens que escolhem viver em reclusão absoluta para fugir do contato nocivo do mundo. "Deus não pode ter por agradável uma vida em que o homem se condena a não ser útil a ninguém", resposta da questão 769. É claro que existem casos e casos, propósitos e propósitos. Estou aqui apontando dois extremos que merecem ser pensados.

Na maior parte das vezes quando você sai de cena para refletir, está mesmo precisando de um tempo. Não significa que não vai voltar a dizer para o mundo que está aqui, pronta ou pronto para viver, seja você homem ou mulher. Vou além. Tendo você passado pela experiência da autorreflexão, tem que saber enxergar no outro a importância desse conhecimento interior. Não pode agir com dois pesos e duas medidas. Cobrando do outro uma postura que ele ainda não está pronto para adotar.

Aí, minha gente, caímos naquilo que eu chamo de equilíbrio de ideias. Enxergar necessidades, incentivar amadurecimentos. Qualquer pressão para que o outro volte para o mundo, ou por outro lado, se afaste de uma vez por todas, representa egoísmo. Não pressione, não aceite pressão. Aja simplesmente. O que for melhor irá acontecer.

Se tiver que fechar as portas e janelas vez ou outra, lembre-se que depois de um tempo é preciso deixar uma fresta. Assim, gradativamente, você volta a ver o mundo externo e tenta equilibrar esse novo eu que brota em você com esse universo que seguiu seu fluxo. Pode ser um pouco chocante no início. Mas, depois de um tempo, você acha um novo espaço. E veja só: um novo-velho ser para um velho-novo mundo. Um encontro que promete.

Autora: Luciana Vicente - jornalista