Medicina e Espiritualidade

26/11/2017 14h33

Medicina e Espiritualidade seriam duas entidades a estarem de mãos dadas e sorrindo uma para a outra, certo? Mas nem sempre assim funciona.

Em nenhum momento em minha formação médica ouvi falar em espírito, alma, espiritualidade ou sinônimos.

Seria algo que soaria muito estranho a um estudante de medicina falar em espiritualidade, algo abstrato na mente em formação de um acadêmico tupiniquim.

Essa ruptura ideológica entre a Medicina e a Religiosidade ou Espiritualidade na época das trevas ou Medieval repercute até os dias de hoje.

Somos em sua maioria profissionais médicos materialistas em sua essência. Causa e efeito, Fisiopatologia. Nada o que o bom senso e a observação metódica não expliquem.

Buscamos respostas para tudo baseado em estudos, baseado em evidências. Fatos palpáveis. Explicáveis em todos os sentidos.

Quando buscamos no dicionário o conceito de espiritualidade, encontramos a seguinte definição: 1. qualidade do que é espiritual. 2. característica ou qualidade do que tem ou revela intensa atividade religiosa ou mística; religiosidade, misticismo. 3. tudo o que tem por objeto a vida espiritual 4. elevação, transcendência, sublimidade. 5.
De uma forma geral, a espiritualidade é a busca de conexão com algo maior do que nós mesmos. Envolve também a procura por um sentido na vida.

É uma busca muito particular, que alguns podem descrever como uma experiência sagrada ou transcendental enquanto outros sentem apenas um sentimento de vivacidade e ligação com uma divindade superior – seja ela um Deus, deuses, a força da natureza, seu Eu interno, etc.

Um levantamento recente do banco de artigos Pubmed revelou que o interesse na relação entre a medicina e a espiritualidade vem aumentando ao longo dos últimos 15 anos. Atualmente, é possível encontrar na plataforma mais de 30 mil artigos publicados com as palavras-chave ‘spiritual’ ou ‘religio’. Para ter uma ideia, se colocarmos na busca do Google as palavras ‘saúde’ e ‘espiritualidade’ aparecem em mais de 3,6 milhões de referências.

Além de demonstrarem que as pessoas mais espiritualizadas são mais felizes, pesquisas realizadas em várias universidades americanas vêm apontando que elas também têm maior facilidade em sair de processos depressivos, menos chance de se suicidarem, menor envolvimento com álcool, cigarro ou drogas, são menos ansiosas, não têm tantos medos e, as casadas, mais estabilidade e satisfação em seus relacionamentos. Os estudos também revelam que pessoas com fé enfrentam melhor o estresse e, portanto, envelhecem mais lentamente. A pressão sanguínea torna-se mais baixa, já que a religisiosidade traz sensação de paz. Um desses estudos, feito em 2012 pela Santa Casa de Porto Alegre, mostrou como a dupla medicina e espiritualidade é importante no tratamento médico. No levantamento feito por dois médicos da instituição com 260 pacientes, 70% gostaria que o médico falasse sobre religião, mas apenas 15% o fazem. Além disso, mais de 84% dos pacientes entrevistados acreditava que ter fé faz bem à saúde e 88,2% usava a fé como conforto na doença. A conclusão? A fé influencia no tratamento de doenças.

Um levantamento feito em 2012 com 86 escolas médicas do país apontou que 10,4% possuíam cursos eletivos ou obrigatórios de religião e espiritualidade e mais de 40% vinculavam esse conteúdo para a graduação. Dos diretores das escolas médicas brasileiras, 54% acreditavam que esse assunto é importante para ser ensinado em faculdades de medicina. Já nos Estados Unidos, a porcentagem de escolas médicas que incluem a espiritualidade nos seus currículos chega a 85%.

O ser humano é um ser em relação: consigo mesmo, com seus semelhantes, com a natureza, com a divindade. No fundo, a espiritualidade sempre tem a ver com o transcender a si mesmo e para transcender a si mesmo é preciso entrar em relação. Isolamento nunca é a solução mais razoável.

A busca de sentido e de significado é uma das necessidades fundamentaisdo ser humano, que o distingue, até onde nós sabemos, das demais espécies.

Toda pessoa é necessariamente espiritual, enquanto está dotada de espírito. A palavra espírito não se refere a divindade, mas a um ser dotado de autoconsciência e de capacidade de reflexão sobre si mesmo. A espiritualidade não implica necessariamente na fé em uma divindade pessoal, ao estilo do Deus dos cristãos. Ateus podem ser espiritualistas! Fé na bondade, na natureza entre outros pensamentos profícuos é que define ter ou não espiritualidade.

O valor mais alto e importante que confere sentido a existência diverge muito entre os seres pensantes. Para a pessoa religiosa, este valor é Deus. Para o não religioso, este valor pode ser a liberdade, a justiça, a verdade, a humanidade etc.

Mas a pessoa não espiritual encontra-se centrada em si mesmo, de uma maneira míope e egocêntrica. O egocentrismo é o mais oposto a uma genuína espiritualidade.

É muito comum as pessoas começarem a despertar interesse pela vida espiritual quando a sua saúde física ou emocional não vai bem. Independente de esse ser ou não o melhor motivo para buscar essa ressignificação da sua vida, é fato que a espiritualidade traz um controle emocional e equilíbrio notável à quem a pratica diariamente. Na verdade, à medida que encontramos bem-estar emocional na espiritualidade, temos mais vontade de nos tornar espiritualizados, e isso é um ciclo benéfico, saudável e prazeroso. A busca de uma conexão consigo mesmo e com algo maior do que nós traz emoções positivas aos nossos dias, sentimento de paz interna, gratidão, aceitação, contentamento, completude.

E para finalizar, ofereço o texto abaixo do saudoso Dr. Bezerra de Menezes a meus alunos do curso de Medicina da UFGD, os quais atualmente discutem mais sobre a diminuição de sua carga horária do que sobre Medicina:

"Um médico não tem o direito de terminar uma refeição, nem de escolher hora, nem de perguntar se é longe ou perto, quando um aflito lhe bate à porta. O que não acode por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou no morro; o que sobretudo pede um carro a quem não tem com que pagar a receita, ou diz a quem lhe chora à porta que procure outro – esse não é médico, é negociante da medicina, que trabalha para recolher capital e juros dos gastos da formatura. Esse é um desgraçado, que manda para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vais-e-vens da vida". Dr. Adolfo Bezerra de Menezes (Gama, 1983).

Allan Longhi Médico Cardiologista/ Ecocardiografista/ Professor Assistente FCS-UFGD www.allanlonghi.com.br

Referencias: www.amebrasil.org.br/html/outras_medi.htm blogs.ne10.uol.com.br/ www2.unifesp.br/ https://www.ufrgs.br/bioetica/ferrer.htmhttp://abmanacional.com.br/arquivo/42f3c021ab00925233977374a135fbdb8ba6335e-30-3-medicina-e-espiritualidade.pdf