Há mar a perder de vista, amar para enxergar

26/11/2017 14h22

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Tenho certeza de que você entendeu perfeitamente o trocadilho poético do título desse artigo. Quem é que nunca ouviu a frase "O amor é cego"? Será cego mesmo? Eu não acredito nisso. Pra mim o amor tem visão perfeita e se mantém justamente por aceitar o outro como ele é. A paixão, sim, pode cegar. Num texto chamado "Ante Paixões", Joanna de Angelis, através da psicografia de Divaldo Franco, diz que "a paixão é reminiscência da natureza animal predominante no homem. Leva-o a tormentos inimagináveis, escravizando-o e dilacerando-lhe os sentimentos mais nobres".

O amor, não. O amor sabe exatamente como o outro é. Com defeitos e qualidades. E mesmo enxergando aspectos positivos e negativos da personalidade, se mantém íntegro e estável. Isso significa que quando amamos devemos nos anular? De forma alguma. Devemos nos respeitar antes de mais nada. Conviver bem com a nossa própria consciência. Devemos também compreender que tudo na vida é cultivo e que cedo ou tarde vamos colher o que semearmos.

Dia desses testemunhei duas situações que me chamaram a atenção. A primeira foi logo que saí de casa. O funcionário de uma padaria estava varrendo a calçada e comentou com um senhor que estava perto: "Minha mulher pensa que só porque começou a trabalhar pode mandar em tudo. Tá achando que é o homem da casa, mas as coisas não são assim, não" – disse ele. A segunda foi num restaurante. Um casal almoçava numa mesa próxima. A mulher pediu para o marido pegar um sorvete. Ele foi e quando voltou a esposa perguntou se tinha de outro sabor. O marido, grosseiramente, bateu na mesa e disse que se ela quisesse que levantasse e fosse ver se havia o outro tipo de sorvete porque ele não estava disposto.

A gente sempre acha que o que mina as relações são os grandes acontecimentos. É claro que eles também possuem um efeito destruidor, mas na maior parte dos casos as relações vão morrendo aos poucos. É na falta de cuidado que um tem com o outro. É na atenção que nunca chega. É quando só um tem obrigações e o outro apenas direitos. Mas, sem dúvida, nenhuma palavra se encaixa melhor numa relação, seja de que natureza for, do que respeito. Se eu divido o mesmo espaço com outras pessoas, tenho que, no mínimo respeitá-las. O fato de termos liberdade, não nos dá a permissão para sairmos por aí, nos ofendendo em público ou no ambiente privado.

Uma relação saudável requer cumplicidade. Se algo lhe desagrada, fale para seu parceiro. Ele pode precisar do seu comentário para fazê-lo perceber a forma como se comporta. Muitas vezes você pode ficar irritado com o outro, sem que ele seja capaz de perceber que está causando aborrecimentos. Mais do que isso, ele pode não ter intenção nenhuma de provocar uma insatisfação. Se você expuser o que sente, sem deixar a bola de neve crescer, a situação pode ser facilmente contornada. O outro pode, sim, errar e corrigir.

Por outro lado, você também precisa ser humilde. Humilde para reconhecer que pode ter se irritado por orgulho e para admitir que quem gera o problema em alguns momentos é você. Quando tiver essa percepção, será capaz de reinstituir o diálogo franco e aí, caímos num outro elemento fundamental numa relação forte: a transparência. Precisamos saber como quem convive conosco se sente em relação aos nossos atos. Precisamos fazer com que os demais saibam quando nos sentimos incomodados com determinadas situações. Não precisamos ser agressivos quando resolvemos nos expor. Podemos ser claros usando da nossa mais profunda sinceridade sem ferirmos ninguém.

Um tem que ajudar o outro. Um tem que querer ver o outro bem. São pessoas que jogam no mesmo time. Se um manda na casa, já há um desequilíbrio. Se o marido é grosso com a mulher num restaurante, como é que ela vai querer se abrir com ele? Não vai. Pode aguentar calada, mas algo dentro dela, aos poucos, irá se dissolver. Devemos ser persistentes, mas não podemos nunca esquecer de olhar para os nossos gestos. Só assim, entenderemos o sentido do título desse artigo: podemos viver infinitos em comum, mas nos amando verdadeiramente, seremos capazes de ver o que estamos construindo.

Autora: Luciana Vicente - jornalista