Filosofia do salão de beleza

16/04/2018 21h53

Fonte: festinhalegal.wordpress.com Fonte: festinhalegal.wordpress.com

Quem me conhece um pouco, sabe que eu sempre fui adepta da filosofia de que cabelo, cresce. Nunca tive medo de adotar novos cortes e, quando foi o caso, mudar a cor dos fios. Há dois anos, no entanto, um fato me deixou verdadeiramente traumatizada. Fui a um salão, no qual nunca tinha ido, e queria fazer luzes, o que já tinha feito antes por anos. Prefiro pensar que eu não tenha me expressado direito, mas o fato é que eu saí de lá parecendo uma mistura de Madonna e Billy Idol. Quando olhei no espelho quase tive uma síncope. Entrei em estado de choque. Nada contra quem tem o cabelo assim. Eu apenas não estava em busca dessa tonalidade.

Fui pra casa porque não tive coragem de dizer que estava extremamente decepcionada na hora e quando vi a reação das pessoas, comecei imediatamente a chorar. Você pode estar rindo de mim agora, sou capaz de compreender. No dia seguinte, não me contive. Coloquei um lenço na cabeça, voltei ao mesmo salão e pedi que arrumassem o estrago. Saí de lá, sem as luzes, mas com uniformidade. O tom era "cor de burro quando foge". Não era o que eu queria, porém, diante do que eu tinha vivido há poucas horas, estava perfeito.

Dois dias se passaram e veio um novo trauma. Bastaram duas lavadas na cabeça para eu parecer um monstro. Nem vou descrever a coloração. O que eu fiz? Emergencialmente fui a um salão velho conhecido e pedi por misericórdia que dessem um jeito. Não preciso nem dizer que tomei uma bronca do tamanho do mundo e fui proibida de pintar o cabelo por um bom tempo. Tanto é que até agora continuo sem mudar a cor, conservando o meu tom natural. Se depender de mim isso está com os dias contatos, após um longo e tenebroso inverno.

Você deve estar se perguntando: sobre o que é mesmo esse artigo? E eu respondo, com toda certeza, de que definitivamente, não é sobre estética capilar. Já parou pra pensar, ou parou pra sentir, ou já sentiu sem parar, que certas experiências em nossas vidas são mais marcantes do que outras? De repente, você pode ter a mesma experiência que eu, mas não sofrer tanto diante de um quadro como o que eu vivi. Ou, também, você pode sofrer mais. Deixando os cabelos de lado, vamos nos olhar para dentro. Podemos enfrentar situações similares e ter reações diferentes. Por exemplo, alguém que amamos pode morrer, um relacionamento pode chegar ao fim, podemos perder um emprego que lutamos muito pra conseguir. E pode ser ainda mais grave: já pensou se tudo isso acontece ao mesmo tempo? Como nós reagimos? Passado o impacto inicial, ou seja, sentirmos a dor diante do que enfrentamos (dor essa que não deve ser negada), seguimos para o processo de cura.

É importante salientar que nem sempre, quando temos uma ferida, nosso corpo consegue nos deixar sem cicatrizes. Quem é que não tem uma marquinha de catapora ou de quando enroscou o braço numa cerca de arame farpado? Certamente todos nós possuímos marcas assim. Mas, há também, as marcas verdadeiramente profundas, aquelas registradas na nossa alma, no nosso coração e que vão sempre nos acompanhar, onde quer que estejamos. Diante desses sinais obtidos ao longo da vida podemos atribuir nossas dores ao outro, ou seja, o outro é o culpado, o outro é o causador dos nossos traumas, ou, por outro lado, podemos enxergar que nossos traumas são decorrentes de nossas ações. Voltando a minha experiência estética traumática, quem escolheu mudar de salão de beleza, conforme o narrado no começo do texto, fui eu. Ninguém me obrigou a nada. Por que, então, ficar disseminando a culpa? Nada disso. Tenho uma parcela de responsabilidade. É assim em tudo.

Não tenho dúvidas de que nosso espírito possui cicatrizes profundas. Se alguém não agiu conosco como esperávamos, certamente, é porque algo dentro do outro pediu para que ele agisse assim. Talvez por termos provocado um trauma antes. Talvez por medo. Talvez pela mera constatação de que as bases não eram sólidas. Tantas hipóteses são possíveis, mas diante de uma infinidade de caminhos, o importante é saber que o nosso coração sempre esteve ali, sempre nos acompanhará com uma verdade que vai muito além dos fios de cabelo.

Autora: Luciana Vicente - jornalista