Em um relacionamento sério

11/05/2018 11h08

Não é por acaso que cada um de nós possui uma característica diferente. Uns encontram nos números e na lógica uma forma de ganhar a vida e de encontrar o desenvolvimento. Outros, têm nos trabalhos manuais o caminho para a realização. Há quem tenha facilidade em falar. Há quem tenha facilidade em ouvir. Há quem escreva. Há quem pense. Há quem estude. Há quem ensine. Há quem observe.

Quem tem um relacionamento sério seja com o que ou com quem for, sabe que o casamento só chega mesmo se houver comprometimento. E o que representa o comprometimento no reino das palavras? Quer dizer entender que cada sentença possui um significado, ou seja, se você tem facilidade em falar ou escrever palavras de impacto, não pode esquecer que esses substantivos, adjetivos, advérbios e pronomes são liderados por um indivíduo invocado chamado verbo. E o verbo tem uma função essencial. É o que promove a ação.

A necessidade de agir nos tira da zona de conforto. O que adianta um médico tratar seus pacientes e ser negligente com a própria saúde? O que adianta um engenheiro construir prédios magníficos e viver numa casa que pode desabar a qualquer momento por falta de cuidado na obra? Da mesma maneira, é importante refletir. De que vale escrever textos profundos e na prática fazer tudo diferente? A relação com a ação não pode ser deixada de lado. É claro que discursar é diferente de colocar em prática. Nós temos exemplos mais do que consolidados disso na nossa política. Mas, esse texto não é político. Esse texto é pra reverberar por dentro.

É mais do que óbvio que você, como leitor atento, já percebeu que eu estou tendo uma "DR" comigo. E não se assuste porque isso acontece sempre. Afinal, se eu não for capaz de me enxergar, quem será? Sempre pensei que é uma obrigação do ser humano tentar ser hoje, melhor do que ontem, e amanhã, melhor do que hoje. Não podemos parar no tempo e no espaço. Não precisamos correr, é verdade, mas precisamos buscar o movimento.

No caminho da autotransformação, a transparência é essencial. Teatro é bom, MUITO bom, no palco. Na vida, temos de conviver com a realidade. A verdade dos acontecimentos cotidianos vai muito além do que a nossa mente fantasiosa pode estabelecer. Por falar em fantasia, me lembrei de ler dia desses um texto sobre a ilusão e, por consequência, a desilusão. Me perdoe porque não lembro onde foi que li, mas o fato é que havia uma frase que me chamou muito a atenção: "a desilusão é um defunto que precisa ser sepultado". Talvez, numa reflexão mais aprofundada e considerando que para a doutrina espírita, a morte do corpo está longe de ser o fim, a única morte existente mesmo, seja a da ilusão. A ilusão que morre precisa ser vivenciada como um luto. Só vivendo esse luto do que você acreditava ser e do que é, é que você vai ser capaz de virar a página. Dando ao luto o tempo necessário, que pode ser rápido, mas que também pode durar muitos anos, você será capaz de seguir em frente. Eu serei capaz. O outro será capaz. Quando deixamos de nos iludir e entramos em contato com a desilusão, o choque pode ser muito grande. Aí, podemos sentir o que não queremos e dizer o que não devemos numa forma de negar a verdade. Não é nada legal atirar pra todo lado destilando um vocabulário não muito nobre tendo como alvo alguém que não é obrigado a satisfazer nossos desejos ou ter qualquer sentimento que seja por nós.

Antes de estar num relacionamento sério com o outro, esteja em um relacionamento sério com você. Antes de falar para alguém se alimentar bem, ler bons livros, ser respeitoso, seja você. Antes de culpar, analise seus próprios atos e veja como você está agindo. E por falar em agir, reparou que o título desse texto, embora significativo, não tem verbo? Foi de propósito. É pra você e eu pensarmos que palavra sem ação, não significa nada. Já a ação, sem palavra pode dizer muito. Pode dizer tanto que vidas conseguem ganhar rumos, que rumos podem nos levar a lugares, que lugares guardam lares, guardam pessoas, guardam sentimentos, guardam desculpas e guardam coragem de arregaçar as mangas e seguir em frente. Se puder, me perdoe pela falta de verbo. A classe das palavras não é das mais simples.

Lucina Vicente é jornalista