É hora de entrar em campo

19/06/2018 11h47

Imagem: www.somostodosum.com.br

Em plena Copa do Mundo é difícil ver a amarelinha em campo e ficar de braços cruzados, sem mexer um músculo sequer do rosto. Duvido que alguém aqui não se emocione ao ouvir o hino nacional cantado por milhares de vozes no estádio. É um espetáculo bonito demais. É como se nossas esperanças se concentrassem e ganhassem uma nova oportunidade de realização.

Não vou discutir aqui se é proporcional ou desproporcional a importância que damos ao futebol e nem vou entrar no mérito de que esse é apenas um pano de fundo para nossos anseios mais legítimos e necessários. Quero é falar de entrega. Você já parou pra pensar em qual é o seu nível de entrega ao se decidir fazer uma coisa? Vou esclarecer. Suponhamos que você tenha lutado muito para conseguir um emprego. Aí, quando finalmente surge a oportunidade, o que você faz? Parece entender que o esforço já foi aplicado, ou seja, que ele valia apenas até o momento de ser contratado. Agora que está com a carteira assinada, não é mais importante tanto empenho. Você pensa assim? O mesmo tipo de raciocínio é constantemente adotado nos relacionamentos. Nos momentos iniciais você se esmera em atenção e delicadeza. Depois, nem se esforça mais para enxergar o que o seu parceiro(a) está sentindo, em como ele percebe o envolvimento de vocês. Sabe o motivo? Você só consegue pensar em primeira pessoa. Entra numa zona de conforto e parece só querer cumprir o tempo regulamentar.

Ocorre, meu caro leitor, que ter uma vida assim, é permanecer na superfície. É como ter um carro 2.0 e não sair da primeira marcha, ou, se preferir, é como andar com o freio de mão puxado, se privando da riqueza que o espera logo ali na esquina. Riqueza, entenda bem, vai muito além de uma conta bancária cheia. Isso, aliás, é absolutamente secundário. Riqueza é ser legítimo no que se propõe a fazer. É perceber que o mundo é cíclico e que a colheita de hoje depende do plantio de ontem. Se você deixa de plantar, mais cedo ou mais tarde, vai deixar de colher. Simples assim. Se está em campo somente para administrar o resultado, muito cuidado. O jogo pode se tornar chato, enfadonho. Afinal de contas, vale a pena viver sem entrar na vida? Isso não é uma fantasia? Fechar os olhos para a realidade? Não fazer o melhor para progredir?

Gente, vamos abrir os olhos. Vamos fazer o nosso melhor. Não podemos fazer o trabalho do outro, é bem verdade. Também não podemos ser hipócritas em apontar falhas alheias sem sermos capazes de olhar verdadeiramente pra nós mesmos. Nós sempre temos o que e em que melhorar. Podemos ter altura e flexibilidade, ou seja, uma tendência a fechar bem o gol, podemos nos defender, como bons zagueiros. Podemos ser habilidosos e criativos, como um bom camisa 10, mas podemos não conseguir tomar decisões, ou seja, precisamos aprimorar nosso lado artilheiro. Enfim, as possibilidades são inúmeras. O que não podemos, definitivamente, é nos entregar mais ou menos. Não podemos ser pela metade. Precisamos ser inteiros. O outro não é e nunca será nosso meio. Nós somos inteiros como seres humanos. Temos os nossos desafios e nosso progresso pela frente. Assim como o outro. Podemos nós, inteiros, termos grande afinidade com outro inteiro.

Se estamos aqui não é pra cumprir o tempo regulamentar. É pra fazermos bonito, não no corte de cabelo. É pra evoluirmos. A evolução não vem apenas com goleadas e a conquista de três pontos. A evolução vem também com derrotas e a compreensão do aprendizado necessário. A evolução vem com a humildade.

Portanto, meu amigo, se você está num emprego mais ou menos, num relacionamento mais ou menos, seja sempre mais. Deixe o menos para quem não é capaz de se comprometer tanto quanto você. Deixe o menos para quem ainda não entendeu que estamos aqui para aprender. Deixe o menos para quem ainda não descobriu a importância de ser mais. Se a vida é um jogo, é um jogo sério, que não aceita malandragem, que não aceita jeitinhos de sair pela tangente. A vida é tão linda que não podemos dormir e perder a paisagem.

Autora: Luciana Vicente - jornalista