Compartilhar

01/08/2018 20h56

Segundo o dicionário Houaiss, compartilhar é verbo transitivo direto e indireto, e também bitransitivo. Está indexado em português desde 1881. Com essas regências é sinônimo de ter ou tomar parte em algo, arcar com algo, compartir algo ou partilhar algo com alguém. É sinônimo de coparticipar e repartir. É um verbo regular de primeira conjugação. No âmbito da computação e da mídia digital, indica o que se usa em rede com outro computador ou usuário, por exemplo, quando mais de um usuário faz uso de uma mesma máquina, quando uma impressora está ligada a dois ou mais computadores, quando um arquivo enviado para a nuvem é acessado por mais de um usuário. Nesse último sentido, esse verbo ficou mais conhecido quanto mais temos acesso a internet e fazemos "coisas" através dela. É o tal do compartilhar que já se espalha para outros campos e sentidos da vida cotidiana.

Nesse caso, o que ele significa? Significa participar de um novo paradigma, o paradigma da inclusão. É, portanto, palavra indiciária de um novo tempo. Antes, usávamos dividir e também partilhar para falar de nossos sentimentos cristãos, por isso, dividíamos o pão com os outros, no sentido de dar-lhes de comer. Em geral, dividíamos o que nos fartava ou dávamos o que não nos faria falta.

Tal como nos aparece hoje, está vinculado a essa da geração Z, a chamada geração dos nativos digitais, da era da internet 2.0, da geração dos nascidos de 1990 a 2010 que revolucionou a maneira de lidar com os impressos. Essa geração trouxe uma sua cultura a ideia de (com)partilhar, ou seja, de disponibilizar, de compartir com o outro aquilo que se tem, sem necessariamente perder ou dar aquilo que possui. Um ícone dessa cultura é o compartilhamento de imagens e de arquivos que são enviados do emissor para o(s) receptor(es) sem que o primeiro perca a posse, sem que precise fazer cópias.

Porém, mais do isso, estamos desafiados a entrar na lógica da filosofia trazida pelo verbo. Nesse sentido, compartilhar significa superar a lógica de dividir. Significa ter e ao mesmo tempo ceder, como no caso da guarda compartilhada de filhos; significa permitir que o outro também se empodere como no compartilhamento de conhecimento; significa permitir usar conjuntamente ou usar colaborativamente como nos ambientes de co-living (morar junto, no mesmo lugar) e de co-working (trabalhar em conjunto) etc. etc.

Essa lógica nos faz lembrar que compartilhar está mais próximo da mensagem de Jesus do que dividir e partilhar, no sentido estrito de ambos. Pois, quem divide ou partilha fica sem uma parte, já quem compartilha cede. Nesse sentido, parece que nos aproximamos da abundância de quem ama, pois, quem ama (se)doa e não tem perdas, ou contrário, prospera. Ou na lógica do perdão. Quem perdoa, compartilha com o outro seu bem-estar, cede ao outro (o agressor) sua paz de espírito. Tal como na lógica do compartilhar imagens, arquivos, informações, quanto mais o amor circula, quanto mais pessoas o perdão atinge, mais o emissor agrega valor a si.

Pensando sobre isto, concluí que quem cede não perde, permanece com, e ainda permite que outro também tenha. Quer algo mais cristão do que isto?! Nesse sentido, me parece que esse verbo se vincula o paradigma cristão exemplificado pelo óbolo da viúva e quanto mais o colocarmos em prática mais ajudaremos esse sentido a se fixar e faremos com que uma nova data de indexação seja incluída nos dicionários.

"E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deitou mais do que todos os que deitaram na arca do tesouro." Marcos 12:43

Denise Lino
Professora da Universidade Federal de Campina Grande