Atitudes nossas de cada dia

23/07/2018 08h14

Você, que costuma ler os artigos que escrevo, já deve ter percebido que gosto sempre de usar elementos triviais do cotidiano para refletir. É claro que a teoria é importante e nos dá repertório, mas a prática é que consolida esse ensinamento. Quando não colocamos em ação o que aprendemos nos livros, eles se tornam apenas um amontoado de letras. Leiamos muito, cada vez mais, porém, não nos esqueçamos do mais importante: as nossas próprias ações.

Pense comigo, qual o melhor lugar para praticarmos o que aprendemos com a riquíssima literatura básica espírita que nos cerca? Evidentemente, que tratar bem as pessoas dentro do centro espírita é essencial. Lá, costumamos falar baixo, temos gestos leves, cordiais. Agora, eu pergunto: e daí? De que vale sermos educados num ambiente que já pressupõe que sejamos assim e quando saímos parecemos selvagens no meio da multidão?

Muito bem. Seguindo o raciocínio. Estou tentando voltar aos exercícios físicos. É uma dureza. Enfim. Deixemos esse assunto pra outro dia... O fato é que mesmo numa academia já dá pra testar nossa conduta espírita. Estava eu lá me esforçando em meio aos aparelhos. Só estávamos eu, sozinha, e um rapaz com o seu personal trainer. O personal, vendo que eu me dirigia a um aparelho, mais do que depressa colocou um colchonete em cima, sinalizando que usaria.

Eu, naturalmente, mudei de direção e fui pra outros aparelhos. Fiquei observando quanto tempo ele demoraria pra liberar aquele. O tempo passava e nada de conseguir fazer aquele exercício. Confesso que fiquei bem irritada. Aí, pensei nas minhas atitudes. Se eu o questionasse e ele respondesse algo que eu não considerasse educado, talvez eu perdesse a paciência. Afinal de contas, eu também sou um ser em aprendizado, assim como você. Acabei respirando fundo e deixando passar. Talvez em outra época, eu tivesse discutido. O que estou querendo dizer com isso? Nós estamos aqui pra melhorar. E esse caminho é lento. Começa com pequenas coisas. Um silêncio tem o seu valor. Naquele momento foi o melhor que pude fazer.

E, assim como esse, há milhões de outros exemplos. Que atitude você costuma ter no ambiente de trabalho? Reclama de tudo e de todos? Denigre o colega ao invés de ajudá-lo? Essa é uma postura aprendida na literatura espírita? Tenho certeza que não. É claro que num ambiente de trabalho convivemos com as mais diferentes pessoas, tendo ou não afinidade com elas. Muitas vezes podemos não concordar com algumas atitudes, mas o respeito é fundamental.

Assim como a educação. A gente costuma pensar em grandes acontecimentos. No entanto, me refiro aqui as coisas mais simples. Vamos supor o seguinte: você detesta o perfume que o seu colega ao lado usa. O que você faz? Nada? Aprende a conviver com isso? Ou o humilha, dizendo que está passando mal e fazendo um verdadeiro show pra que ele se sinta constrangido? Particularmente, penso que nessa situação não devemos dizer nada, se isso for apenas uma questão de gosto. Devemos, sim, conviver com a escolha diferente da nossa.

Suponhamos, no entanto, que o cheiro esteja excessivo e você fique constantemente com dor de cabeça em decorrência do perfume. Nesse caso, com tato, delicadeza, seria possível conversar. Mas, sem ser invasivo, sem agressividade. Percebe que são coisas corriqueiras que todos podemos vivenciar?

De que vale nós dominarmos todas as teorias e tecnologias, e nesse caso, amplio e muito a minha linha de alcance, porque é uma questão que engloba as mais diversas doutrinas, crenças e religiões, passando a abranger a todos, se guardamos o conhecimento apenas para os livros e nos comportamos socialmente como crianças? É isso mesmo.

É incrível a quantidade de pessoas adultas cronologicamente, que agem como recém-nascidas espiritualmente, socialmente, educacionalmente. Sim, eu sei, estamos longe ainda da perfeição, mas olhemos para o lado. Há alguém. Esse alguém sente como você, como eu. Como você se sentiria se fosse tratado como acaba de tratar o outro? Se nada mais do que eu escrevi aqui fizer sentido pra você, pense apenas nisso. Em como se sentiria se fosse tratado da forma que acaba de tratar. Talvez, pensando nisso, já seja possível transformar ações. Transformar pessoas.

Luciana Vicente é jornalista