Abrir é diferente de arrombar

09/01/2019 15h24

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Para que conquistas representem avanços reais

Se tem uma coisa que me irrita na vida é perder horas e horas num salão de beleza. Talvez, isso se deva ao meu senso de utilização do tempo, ou se preferir, de maneira menos filosófica, a minha total falta de paciência em ficar parada, inerte, esperando a ação dos elementos químicos que escolhemos ser necessários para um simples trato no visual. Ocorre, que salão de beleza também pode ser um laboratório de análises, como todos os outros lugares, dependendo do nosso olhar.

Pois bem, estava eu de castigo dia desses num salão e uma cena gritante me fez sair da meditação do tédio para me fixar em algo mais abrangente do que se poderia supor em primeira instância. Uma mãe chegou com as duas filhas. Uma devia ter uns treze anos e a outra não mais que seis. As duas meninas foram fazer mechas coloridas no cabelo. Enquanto as meninas descoloriam o cabelo e passavam por todo o processo, uma outra garotinha, que estava ali acompanhando a avó apenas observava. Eu, claro, era a observadora da própria observação. A menininha olhava, mas não manifestava qualquer desejo de fazer também as mechas. Nisso, a mãe das garotas que estavam passando pelo procedimento disse a ela: "- Você não quer fazer mechas também?". A avó se antecipou e respondeu: "O pai dela não deixa". A mãe, retrucou: "É só dizer pra ele: ‘meu corpo, minhas regras’. Cada um responde por si".

Confesso que estou há pelo menos vinte dias pensando nesse assunto. Confesso também que a maneira de escrever sobre esse tema também mereceu um bom período de reflexão, mas me senti na obrigação de propor que você também pense a respeito.

Nós todos trabalhamos por avanços, por liberdade, por igualdade, por evolução. Isso vale para homens, mulheres, de todas as raças, de todas as identidades sexuais, de todas as religiões. No entanto, é preciso que saibamos identificar o que tem a ver com a nossa liberdade e o que tem a ver com o amadurecimento necessário para que possamos exercer essa liberdade. O que eu estou querendo dizer com isso? Será que uma criança na faixa de seis anos tem maturidade para decidir o que fazer com o próprio corpo? A questão das mechas é só a ponta do iceberg para algo muito mais profundo. Se usarmos uma simples ida ao cabeleireiro como elemento simbólico para pensar, vamos notar que a discussão envolve uma série de fatores, como, por exemplo, que tipo de mecha vai ser feita? Será necessário descolorir o cabelo antes? E o produto vai ter amônia? Ou será uma tinta que não exija o uso de químicas pesadas? Tudo isso tem que ser levado em conta. Me pergunto, a frase mais adequada para um adulto é ensinar o tal do clichê, "meu corpo, minhas regras", ou é fazer com que a criança entenda que ela deve, sim, ser a responsável por suas escolhas, mas que para isso precisa conhecer os prós e contras de suas decisões e, consequentemente, pra entender os prós e contras, é necessário um certo nível de amadurecimento. Por falar em clichês, preciso enfatizar antes de ser crucificada por movimentos que podem não entender o que estou dizendo, que sou absolutamente defensora da liberdade de escolha, do bem fazer, de seguir o caminho que nos parece melhor. Afinal, o que é bom pra um, pode não ser para o outro.

Mas, gente, por favor, não passemos os carros na frente dos bois. Ensinemos nossas crianças a pensar com a própria cabeça, mas sejamos capazes de entender que tudo tem seu tempo certo para acontecer. Não sou contra mechas. Em casos, especialmente de crianças, há de se considerar o contexto da situação. Portanto, sem verdades absolutas, porém com maturidade para ponderar. Maturidade é entender que o equilíbrio é o melhor dos caminhos. Sins e nãos são necessários e nos ajudam a viver.

Abrir uma porta é bem diferente de arrombar. Quando arrombamos, invadimos o território alheio. No caso dos pais, dizer não em alguns momentos é dar a oportunidade para que o filho diga sim num outro espaço de tempo, consciente de sua decisão, sem ser influenciado por alguém, que projetando sua própria angústia, queira impor um comportamento que ainda não floresceu naturalmente. Me desculpe se fui dura...pra você ver que isso vai muito além de mechas.

Autora: Luciana Vicente – jornalista