A parte que falta

11/03/2018 21h19

Quem é antenado em literatura reconheceu nesse título o nome de um livro famoso. Um livro infantil, diga-se de passagem. A história escrita sem versos, mas poeticamente, para crianças, mostra a busca que normalmente costumamos ter pela chamada completude, ou seja, faltaria um pedaço em nós. Esse pedaço faltante, nós tentamos encontrar no outro. Às vezes, segundo a história contada, encontramos pessoas que se encaixam exatamente nesse vazio. Outras, são pequenas ou grandes demais. Em outros momentos, ainda, mesmo havendo o encaixe perfeito, deixamos escapá-las. Por que isso acontece? Não vem muito ao caso agora. Mas, a reflexão que se faz é mesmo se o outro é capaz de nos completar e se temos um vazio interior.

Tenho a petulância de me antecipar na resposta. O outro não é capaz de preencher o nosso vazio. E sabe o motivo? Os desafios que temos de enfrentar são intransferíveis. Se você quer fazer medicina, quem tem que estudar para a prova é você. Se você quer dirigir, quem tem que aprender é você. E nesse processo, você pode errar. Eu sou um exemplo disso. Repeti algumas vezes na prova de baliza. Poderia até me envergonhar de dizer isso. Hoje, não vou dizer que amo estacionar em lugares estreitos, porém, até que hoje faço uma baliza muito bem. E precisamos nos aprimorar em todas as áreas.

Quando achamos que o outro pode preencher o nosso vazio, estamos buscando muletas emocionais. Além de acharmos que ele é só uma parte. Na realidade somos todos inteiros. Temos que nos preencher de nós mesmos e só assim poderemos ser a melhor companhia para o outro. A recíproca é verdadeira. Se o outro pode nos completar, seguindo o ponto de vista de estar faltando um pedaço em nós, quando temos companhia, equivale a dizer que temos uma peça nova. A peça que supostamente nos falta. E, se temos, somos donos. Logo, estamos longe de falar de amor. Estamos falando de posse.

E aí, leia o que diz Joanna de Angelis no texto "Leis Cármicas e Felicidade", do livro "O Homem Integral". "Na sofreguidão da posse, o homem supõe que o apego às coisas, a disponibilidade de recursos, a ausência de problemas são os fatores básicos da felicidade e, para tanto, se empenha com desespero. Ao desfrutar deles, porém, dá-se conta que não se encontra ditoso, embora confortado, porque é no seu mundo íntimo, de satisfação e lucidez em torno das finalidades da vida, que estão os valores da plenitude". Brilhante, né? O que ela está dizendo com isso? Elementar, meu caro, que se você não encontra a si mesmo, não vai encontrar no outro o que lhe falta. Portanto, sigo com meu raciocínio. Não tem jeito. É preciso ver prazer na própria companhia. Como vai fazer bem ao outro se não consegue ao menos fazer pra você?

Se negamos a nós mesmos, fatalmente negamos o outro. E lá vem Joanna de novo, no mesmo texto citado antes: "A insegurança porque se está a sós assusta, como se a presença de outra pessoa pudesse evitar os fenômenos automáticos de transformação interna do ser – fisiológica e psicologicamente – impedindo os acontecimentos desagradáveis ou a morte".

A solidão verdadeira, aquela que temos que reconhecer como saudável, corresponde a uma mente livre, que observa sem julgar, sem memória conflitante do passado e nem desespero pelo futuro. Não é algo depressivo e nem digno de pena.

Precisamos aprender a amar. Não o amor que falsamente preencheria a parte que faltaria em nós. O amor, que segundo Joanna de Angelis em "O homem Integral", "Não se escora em suspeitas, nem exigências infantis; elimina o ciúme e a ambição de posse, proporcionando inefável bem-estar ao ser amado que, descomprometido com o dever de retribuição, também ama. Quando, por acaso, não correspondido, não se magoa nem se irrita, compreendendo que o seu é o objetivo de doar-se, e não de exigir."

Não estou defendendo aqui que homens e mulheres sejamos "Amélias" do mundo contemporâneo. O amor também é por nós. Estou dizendo, numa analogia ao título, que a parte que nos falta é muitas vezes a que nos permite ver que somos completos sozinhos e que o outro pode nos ajudar imensamente a crescer, mas não pode nos ver sem que nós mesmos nos enxerguemos.

Autora: Luciana Vicente - jornalista