A lição sem cartilha

13/11/2017 11h13

Dia desses, saí pra trabalhar cedinho. Ao passar por uma avenida que em horário comercial é extremamente movimentada, vi uma cena que me chamou a atenção. Um morador de rua dormia no chão, enrolado num cobertor velho. Ao lado dele, debaixo do mesmo cobertor, um cachorro, também adormecido.

Embora fosse uma representação da nossa falência como sociedade, a imagem era muito bonita. Tive vontade de fotografar, mas não achei respeitoso expor o morador de rua. Guardei, então, na minha memória. O cuidado dele em abrigar o cãozinho era incrível. O abrigo que ninguém lhe dava, ele oferecia.

Fiquei imaginando qual seria a história de vida daquele senhor grisalho, que passava as noites ao relento, correndo todos os riscos que a cidade grande oferece. Eu estava sozinha e confesso que fiquei sem ação diante daquela imagem. Passei por ela e continuei minha rotina. Mesmo assim, segui pensando se seria possível ajudar e como proceder, uma vez que estou aprendendo a entender a estrutura da metrópole. Aquele homem sem casa, era casa para um cãozinho. Comecei a refletir na grandeza daquele ato e percebi que o aprendizado pode chegar pelos mais diversos meios, desde que nós estejamos abertos a percebê-lo.

Comecei a relatar essa experiência sem saber como conduzir o texto a partir do exemplo do morador de rua e recebo, de repente, a mensagem de voz de um amigo padre, que conheço há muitos anos. Ele desenvolve desde a adolescência um trabalho com moradores de rua. Nos últimos dias começou a percorrer praças, levando palavras de consolo. Eis que um homem, que vivia numa dessas praças o chamou para mostrar um vídeo pelo celular. Sim, o morador de rua tinha um celular velho, com a tela trincada. E no aparelho estava salvo um vídeo gravado por um pastor. Esse morador de rua pediu um abraço para o meu amigo padre e o convidou a assistir o vídeo gravado pelo pastor. Os dois ficaram ali abraçados assistindo ao vídeo. Quando terminaram, meu amigo, se sentindo gratificado, disse que tinha que continuar percorrendo as praças, mas antes, perguntou como o morador de rua se chamava.

Curiosamente, o nome dele era o mesmo de um homem que meu amigo considerava como um pai, e que morreu recentemente. Quando soube dessa coincidência, meu amigo precisou se conter para não desabar em lágrimas ali mesmo. Ele saiu para ajudar, para passar uma palavra de esperança e estava sendo ajudado.

A mensagem de Deus aparece das mais diversas maneiras em nossas vidas. Ocorre, que nem sempre nós somos capazes de interpretá-la. Quantas vezes, mergulhados em nossas dores, em nossos próprios sofrimentos, deixamos de olhar para o outro, deixamos de tentar compreender o que lhe está acontecendo. E se olhamos, já estamos com uma condenação pronta para lhe atribuir.

A vida de todos nós é feita de ciclos. Algumas fases demoram mais a passar. Outras seguem de maneira ligeira. Como diria uma frase conhecida de Chico Xavier: "Isso também passa". É a nossa única certeza. Não importa o que estamos atravessando. Vai passar. Outros momentos, outros desafios, outros aprendizados irão surgir e nós temos que tentar oferecer sempre o nosso melhor.

Não é porque sofremos perdas emocionais significativas que vamos ter que nos fechar para o mundo. Não é porque os "nãos" passaram pelos nossos caminhos que os "sins" deixarão de surgir. "Nãos" e "sins" são legítimos ao longo da jornada.

Estamos falando de esperança. Joanna de Angelis, afirma: "O que agora parece sombra, logo mais surge e ressurge em ouro fulvo de luz. Espera, diz o Evangelho, e ama. Espera, responde a vida, e serve."

É o que devemos fazer em todos os momentos. Manter o equilíbrio e seguir em frente. Sempre tem alguém pronto e nos ensinar lições importantes. Para isso, basta que estejamos abertos. Certamente, se só temos olhos para ver o óbvio, vamos deixar de enxergar cores e de experimentar sabores que podem ir muito além do que esperamos. Pra isso, no entanto, precisamos fazer o plantio adequado. O que estamos plantando hoje? Espinhos? Como colher algo diferente? O morador de rua que abrigava o cãozinho plantava amor. O outro morador de rua que emocionou meu amigo padre, também. Nos ciclos da vida, o novo vai chegar. Façamos sempre o nosso melhor. Sejamos a nossa melhor essência.

Luciana Vicente - jornalista