A dor pesa sem balança

14/07/2018 21h13

Há alguns dias eu estava na fila pra pegar um ônibus, levando uma mochila mais do que abarrotada e torcendo para o motorista abrir logo a porta. Nisso, começo ouvir a conversa de duas mulheres que também esperavam. Uma delas reclamava da demora alegando ter hérnia de disco e ser proibida de carregar peso. A outra, de imediato, respondeu que o caso dela era mais grave porque já havia colocado algumas válvulas no coração e não podia ficar segurando pacotes. Eu que não conhecia nenhuma das duas, não pude deixar de ficar pensando na disputa que elas travavam para ganhar o troféu de vítima maior. A impressão que eu tinha era a de que as duas se faziam valer do problema médico para conquistar a atenção.

Mais tarde, depois de terminada a viagem, parei pra pensar na minha própria atitude de julgar o que ouvi, atribuindo um juízo de valor condenatório as duas criaturas, ou seja, deixei de ver o indivíduo, para me apegar a impressão que obtive a partir da conversa das mulheres. Meu raciocínio foi além. Até que ponto podemos julgar alguém observando apenas um fragmento de comportamento? É evidente que não podemos.

É bem verdade, que por um lado, há mesmo pessoas que tentam se passar por vítimas e fazer com que suas dificuldades pareçam as maiores do mundo. Por outro lado, há também aquelas que não ficam gritando aos quatro ventos o que sofrem, o que não significa, absolutamente, que não tenham sofrimentos. Percebe como esta é uma questão sutil?

Eu estou querendo ir um pouco além com esse papo. Quem somos nós para julgarmos o tamanho da dor do outro? Não podemos em hipótese alguma fazer isso. E o motivo é muito simples. Não sabemos o peso que essa dor provoca no indivíduo. Uma dor não é somente uma dor. Uma dor vem carregada de um contexto. Contexto esse que podemos ou não saber. Mais do que isso. nem mesmo o indivíduo que está sofrendo pode compreender todos os fatores que agravam seu sofrimento. Isso ocorre, porque muitos elementos podem não ser conscientes. Podem ter origem muito mais profunda. Portanto, uma situação que em você provoca apenas um arranhão, no outro é capaz de gerar um ferimento profundo. E vice-versa. Não diga que uma pessoa é fraca por se entristecer e até se deprimir vivenciando algo que você tiraria de letra. Ela também poderia tirar de letra alguma coisa que pudesse causar um profundo sofrimento em você. Em se tratando de sentimento, às vezes um par de ouvidos é melhor do que muitas palavras. Se não souber o que dizer ou se souber e a sua palavra puder gerar mais dor, talvez seja melhor ser apenas um ouvinte contemplativo até compreender o tamanho que aquela questão ocupa no sentimento do outro. Isso é fundamental.

Há ainda um outro elemento que não posso deixar de mencionar. Se por um acaso, decidir falar, mesmo que seja dar um conselho, se atente a dois fatores: o primeiro é o que falar propriamente. A sua régua não vale como régua do outro, porque, como já disse, quando o assunto é sentimento, não dá pra ter certeza do tamanho que uma dor ocupa no universo psíquico do ser humano. Há elos profundíssimos adquiridos nessa, e em outras encarnações, que precisam ser considerados. O segundo fator é como falar. Às vezes o que você diz é correto, repleto de sabedoria e equilíbrio, mas o tom utilizado causa uma sensação negativa em quem recebe as palavras que você direcionou. Escrevo isso porque tanto já me utilizei de palavras certas em tons errados, quanto também recebi palavras certas em tons errados.

De qualquer forma, pra finalizar, tenha compaixão. Não julgue para não ser julgado. Tenha a delicadeza que quer que o outro tenha. Não diga que alguém é fraco sem saber com certeza quantas bagagens ele já carrega. Muitas dessas malas você pode não ver, o que não significa que elas não estejam ali, causando um peso danado nas costas de quem muitas vezes precisa só desabafar. No baú dos sentimentos, quem entra com respeito e prudência sempre consegue ajudar, mesmo que em silêncio.

Luciana Vicente é jornalista